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16.3.08

Entre Brownies e Mulgarataths

O interesse em levar AS CRÔNICAS DE SPIDERWICK para as telas surgiu assim que a popular coleção foi publicada, mas seus co-autores, Tony DiTerlizzi e Holly Black, queriam confiar a criação do filme em mãos capazes. Por fim, eles viram em Mark Canton (300) um produtor perfeito para o projeto. “Quando os primeiros livros ficaram prontos e as pessoas nos abordaram para comprar os direitos, tive a sensação de que se tornariam filmes, mas não estou muito acostumado a acreditar que algo de bom vai acontecer comigo”, diverte-se Black.

Quando o produtor e co-roteirista Karey Kirkpatrick (A FUGA DAS GALINHAS) foi abordado pela primeira vez para ajudar a adaptar os livros em um roteiro de cinema, ele imediatamente os leu para os filhos a fim de sentir a reação deles. “Meus filhos ficaram cativados pelas histórias e a possibilidade de eu estar, de alguma forma, envolvido com aquilo”, conta Kirkpatrick. Na hora de escolher um diretor, Mark Waters (SEXTA-FEIRA MUITO LOUCA), especializado em comédias contemporâneas, poderia parecer uma opção inusitada para o material, mas Mark Canton deliberadamente o convidou porque era capaz de fundamentar todos os elementos fantasiosos em uma realidade palpável.

“A idéia que tive para AS CRÔNICAS DE SPIDERWICK foi a de um mundo real em que coisas incríveis acontecem. Mark é o diretor perfeito devido à compreensão da dinâmica entre irmãs e irmãos, mães e filhos e da vida de famílias contemporâneas”, disse o produtor. Waters ficou animado com a oportunidade de fazer um filme de aventura em que as pessoas pudessem facilmente se identificar com os personagens e a história. “Sempre adorei filmes de fantasia e, quando li esses livros, vi a chance de fazer algo que ainda não tinha sido feito – um filme que traz aventura, fantasia e criaturas incrivelmente interessantes, mas que não se passa em uma terra distante”, observa Waters.

Segundo o produtor, o diretor fez um excelente trabalho reunindo um belo e eclético elenco. O protagonista, Jared Grace, interpretado por Freddie Highmore (A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE), está em um ponto crítico de sua vida e é através dessa extraordinária aventura que ele encara e aceita seus sentimentos em relação à separação dos pais. “Ele foi muito afetado pelo divórcio – está com raiva e não esconde seu amargor, principalmente ao interagir com a mãe e os irmãos. Mas, no fim, essa incrível jornada, em que ele basicamente salva a família, resulta também em sua cura”, explica Mark Waters.

Helen Grace, interpretada por Mary-Louise Parker (TOMATES VERDES FRITOS), acabou de se separar do marido quando se muda para a velha propriedade da família, uma casa vitoriana dilapidada de seu tio-avô, Arthur Spiderwick. Ninguém está feliz com a mudança, mas ela tem como aliada a filha, Mallory (Sarah Bolger). “Mallory é como uma pequena mãe. Ela sabe por que o divórcio aconteceu, mas inicialmente não compartilha isso com os irmãos – ela os protege muito, mesmo considerando que eles a eulouquecem, principalmente Jared”, revela o diretor.


O irmão gêmeo de Jared, Simon Grace – também interpretado por Freddie Highmore –, é o mais estudioso dos irmãos, e sua silenciosa determinação e atenção a detalhes tornam-se grandes atributos quando a família está em perigo. Completando a família, o ator David Strathairn (BOA NOITE E BOA SORTE) vive Arthur Spiderwick.

O filme conta também com as diversas criaturas em que as crianças esbarram ao longo da história: do “brownie” (duende da casa) de 23 centímetros Thimbletack a Mulgarath, um assustador ogro de 3 metros dublado por Nick Nolte. “E há também todas as criaturas intermediárias”, explica o diretor. “São goblins, ninfas e goblins do bem, como Hogsqueal, aliado das crianças.” Hogsqueal é dublado – com muito humor e diversos barulhos inadequados – pelo ator Seth Rogen (LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS).

Mark Waters ficou impressionado com o trabalho dos jovens atores do filme. Freddie Highmore é inglês e Sarah Bolger, irlandesa. Ainda assim, observa o diretor, “Quando você os ouve no filme, só consegue captar um bom sotaque da Nova Inglaterra, resultado de seus dons, da extensa pesquisa que fizeram e do constante treino de dialeto. Esses papéis exigem muito, então precisamos chamar artistas que tivessem profundidade, alma e inteligência. Freddie e Sarah têm essas qualidades, e muito mais.” Um dos desafios de Freddie Highmore foi viver dois personagens, cujas diferenças foram bem delineadas pela equipe de produção e pelo próprio ator.

“Queríamos que o público soubesse imediatamente se estavam vendo Jared ou Simon sem torná-los muito caricatos”, diz Highmore. “Os gêmeos têm penteados e estilos de se vestir diferentes. As cores também tiveram um papel importante em distinguí-los. Jared usa jeans e preto ou tons de vermelho, enquanto Simon é mais suave, vestindo roupas conservadoras e muito verde e marrom.”

Já o desafio de Bolger foi aprender esgrima, hobby da personagem Mallory bastante útil quando os irmãos tentam espantar os goblins. “Mallory é muito determinada, e foi divertido retratá-la, especialmente nas cenas de luta de espada”, ela diz. “Mas, no fim das contas, o que eu realmente gosto nela é que Mallory é uma boa irmã e, eu acho, uma boa filha.” Houve momentos, no entanto, que Bolger lembra com menos afeição – principalmente a parte relacionada a suco de tomate e aveia, que, juntos, são letais aos goblins e, depois de um dia no set, pouco agradáveis também a humanos.


“Há uma cena em que os goblins estão correndo atrás de nós e temos que ir até a cozinha para nos proteger”, conta a atriz. “Então, enchemos o forno de suco de tomate e aveia e acendemos o fogo para que exploda e acabe com eles. Foi uma grande cena e o resultado foi brilhante. Mas aquilo fede muito, e a cozinha ficou coberta por uns 7 centímetros de suco de tomate. Foi nojento!”

A Misteriosa Mansão Spiderwick

A propriedade de Spiderwick também é um verdadeiro personagem do filme. O que a princípio parece ser uma velha e isolada mansão precisando de muitos reparos, lentamente revela uma fascinante e misteriosa história. Criaturas estranhas escondem-se nas paredes, e outras ainda mais esquisitas tentam entrar para roubar o estranho e potencialmente perigoso Guia de Campo, resultado de uma grande pesquisa de Arthur Spiderwick. Muitos acontecimentos essenciais do filme se desenrolam ali (tanto no passado quanto no presente) e por isso o desenhista de produção James Bissell (300) precisou desenhar a casa de maneira que o público pudesse apreciar a forma como ela era e o que permanece especial sobre ela nos dias de hoje.

Para isso, ele se baseou no trabalho do designer inglês William Morris e no movimento Arts & Crafts do final do século 19, conhecidos pela ênfase em temas orgânicos. Outra inspiração, é claro, foi a própria coleção As Crônicas de Spiderwick. “Os livros são fantásticos. Eu já os conhecia porque meus filhos adoram, e foi isso que me atraiu ao projeto em primeiro lugar. As ilustrações de Tony são simplesmente fabulosas. Quando eu estava trabalhando no filme, mantive os desenhos dele pendurados na parede para que me inspirassem. Eles sempre traziam alguma informação relevante”, conta Bissell. A casa precisava refletir o interesse de Arthur Spiderwick pelo mundo encantado, pedindo uma locação bastante isolada na área de Montreal, Canadá, onde o filme foi rodado.

“Encontramos uma bela clareira em um parque chamado Cap-Saint-Jacques, onde havia uma pequena cabana, provavelmente construída nos anos 50. A cidade e o parque graciosamente deixaram que nós a demolíssemos para construir outra casa ali”, revela o desenhista de produção. A partir daí, a equipe construiu um elaborado “casco” da casa. “Ele tinha quatro andares e uma torre – era uma estrutura de 360 graus cercada por uma floresta, que também foi utilizada no filme. Construímos, além disso, o piso térreo, incluindo entrada, salão, biblioteca e escada para o segundo andar. E também partes de janelas do segundo e terceiro pisos para tomadas em câmera subjetiva, assim como a torre interior, para que as crianças pudessem correr para dentro e fora dela.”

O trabalho continuou nos estúdios, onde o térreo foi replicado para todas as complicadas tomadas em que Mulgarath invade a casa e os goblins fazem seu ataque final. “Também construímos um segundo andar onde ficam os quartos das crianças e criamos a clareira dos goblins, incluindo uma grotesca árvore em que vemos Mulgarath pela primeira vez”, explica Bissell. E, se a casa é um personagem e o set chave do filme, então o Guia de Campo tem que ser seu principal elemento cenográfico. Seguindo o design geral de Bissell, o Departamento de Arte criou o Guia de Campo usando diários do início do século 20 como modelos. Eles também pesquisaram amostras de escritas à mão e desenvolveram uma fonte que usaram para a própria letra de Arthur Spiderwick. Além do livro, outro importante elemento de cena é a pedra da visão, que, unida a diversas lentes, permite que as pessoas vejam o mundo invisível e encantado descrito no Guia de Campo – e todas suas estranhas criaturas.


É precisamente um equilíbrio único entre fantasia e realidade que separa AS CRÔNICAS DE SPIDERWICK de outros filmes de aventura. Ele é mais obscuro, assustador e muito mais fincado no mundo real. “A idéia foi ter um mundo de verdade em que coisas inexplicáveis e muitas vezes assombrosas acontecem. O que mantém o filme real e o faz ressoar é que estamos lidando com uma família de verdade, pessoas com verdadeiros problemas que, através dessa aventura, conseguem encontrar mágica dentro de si mesmas”, explica o produtor Mark Canton.

O ator Freddie Highmore sintetiza: “Acho que os mais jovens vão gostar da jornada a um mundo novo e fantástico, que é mágico e eletrizante. Já os pais vão gostar dos temas mais adultos e dos altos e baixos emocionais pelos quais a família passa. É um filme para todos.”

Cortesia: Paramount Pictures

14.3.08

Notas de um Olhar Surreal

A trajetória dO OLHO DO MAL teve início quando a C/W Productions comprou os direitos para uma versão americana do filme asiático de 2002, THE EYE. A partir daí, um novo roteiro foi criado por Sebastian Gutierrez (SERPENTES A BORDO). Gutierrez resume bem a tarefa que encarou: “Há uma linha tênue quando se reinterpreta um filme que já obteve sucesso internacional. É um desafio constante aprimorar a fonte original e manter a integridade da história.”

Apesar de trazer elementos sobrenaturais, o enredo dO OLHO DO MAL é focado em um fenômeno científico verdadeiro conhecido como memória celular: Pessoas que passam por transplantes de órgãos podem herdar comportamentos do indivíduo de quem receberam o órgão. Alguém pode receber o órgão de um fumante e, conseqüentemente, sentir um desejo estranho de fumar. Ou pode se ver estranhamente atraído por esportes, descobrindo depois que o doador era um fanático por esportes. É claro que O OLHO DO MAL é uma ficção, mas o filme explora um fenômeno real, só que de forma sobrenatural.

Na busca de um diretor para o projeto, a dupla francesa David Moreau e Xavier Palud, aclamados internacionalmente por ILS, thriller que escreveram e dirigiram sobre um jovem casal aterrorizado por forças ocultas na zona rural francesa. “Gostamos do fato de poder trabalhar no que não é tão obviamente sobrenatural. Tivemos a grande oportunidade de brincar com a mente do público, mostrar coisas que as pessoas não saberiam dizer se eram reais.” Os diretores estavam decididos a manter uma visão ambígua da sanidade de Sydney.

A personagem convence-se de que as visões aterrorizantes que tem após a cirurgia são reais, mas seu médico e sua irmã não podem deixar de concluir que na verdade ela está passando por um surto psicológico. Segundo a atriz escalada para viver Sydney, Jessica Alba (QUARTETO FANTÁSTICO), “Essa história assusta de uma forma diferente porque o público nunca tem certeza se minha personagem está realmente vendo coisas ou se está apenas enlouquecendo. Isso permite que as pessoas se coloquem no lugar de Sydney.”

Para encarar a difícil tarefa de convencer as pessoas de que a protagonista é, além de uma talentosa violinista, deficiente visual, Alba começou a se preparar para o papel quatro meses antes do início das filmagens. O roteiro trazia uma série de cenas em que as habilidades de Sydney no violino eram mostradas, e os diretores estavam determinados a exibir Jessica realmente tocando o instrumento, e não apenas imitando performances musicais. “Comecei a ter aulas de violino enquanto ainda gravava QUARTETO FANTÁSTICO E O SURFISTA PRATEADO”, conta Alba. “Fiquei meses treinando só para aprender a segurar o arco e o violino apropriadamente e isso foi apenas metade da batalha. Toco peças clássicas complicadas no filme, então precisei mesmo aprender as notas.”

Retratar uma mulher cega foi igualmente desafiador. Alba morou um tempo em uma instituição para deficientes visuais no Novo México e recebeu treinamento: “Jessica encarou o programa como qualquer outra pessoa que perde a visão faria. Os funcionários a ajudaram a ganhar confiança para interpretar uma pessoa cega convincentemente.” Alba também buscou inspiração em uma jovem artista do meio musical, cega desde a infância. “Passamos um tempo juntas e eu pude ver como ela interage com as pessoas, anda pela rua, descobre onde está e se movimenta com tanta facilidade.” A experiência corrigiu muitas idéias erradas que a atriz tinha sobre cegueira. “Muita gente, e eu me incluo nisso, não sabe o que realmente é ser cego. Eu tinha impressão de como devia ser, mas essa mulher mudou o que eu pensava. Ela convive com pessoas que enxergam, compete com elas por empregos e vence.”

O OLHO DO MAL foi rodado em uma fábrica semi-abandonada transformada em estúdio e em dez locações, incluindo a velha estação ferroviária de Santa Fé, o centro de Albuquerque, a pista de corrida de carros de Albuquerque e o povoado Isleta Pueblo. A produção foi então para Los Angeles, filmando no centro da cidade e no Royce Hall da UCLA, entre outras locações.

Ao criar o apartamento de Sydney, os corredores do apartamento são curvados o suficiente para o público não ver o que está por vir, brincando com a idéia de que o desconhecido é tão amedrontador – ou mais ainda – do que aquilo que podemos ver. O cinegrafista Jeffrey Jur também ajudou a revelar o mundo de Sydney, mas sob o ponto de vista da própria personagem. Usando uma combinação de técnica de iluminação e inovador design de lentes, Jur permite que o público enxergue através dos olhos da protagonista, mantendo a sensação de que ela está constantemente na escuridão.

Acrescentando os toques finais do filme, surgem a trilha sonora de Marco Beltrami (OS INDOMÁVEIS) e o desenho de som do três vezes vencedor do Oscar® por DREAMGIRLS – EM BUSCA DE UM SONHO, CHICAGO e FALCÃO NEGRO EM PERIGO Mike Minkler.

Os diretores observam: “Antes da cirurgia, Sydney Wells percebe o mundo através de sons. Seus outros sentidos precisam compensar a falta da visão, então, ao longo do filme, é importante dar ao público a mesma acuidade que ela tem, ajustando níveis de música e efeitos sonoros para passar os detalhes daquilo que Sydney escuta, coisas que o ouvido padrão provavelmente não conseguiria captar.”

Para Moreau e Palud, os elementos dO OLHO DO MAL, das atuações à trilha e imagens, foram cuidadosamente reunidos principalmente nas eletrizantes cenas finais do filme, que levam todos à aflição. O desfecho dá um sentido ao caminho de ida e volta de Sydney à loucura. “Acho que o público chegará com a idéia do que vai ver, e sair com outra sensação”, diz Jessica Alba. “Esse filme é muito mais rico do que parece, e espero que as pessoas se sintam mais ligadas a ele do que esperam.”

11.3.08

Quem é quem em quemlândia… E o que é noo em nool

Horton é diferente de qualquer elefante que já tenhamos visto anteriormente. Ele é extraordinário e, sob muitos aspectos, vai além de seu corpanzil; possui um grande coração, uma grande personalidade e um grande senso de humor. Horton se distingue por sua gentileza, confiabilidade e perseverança. Apesar da imensa adversidade, do ridículo, da condenação e das ameaças, a determinação de Horton em garantir a segurança de Quemlândia permanece intacta. Ele é sempre fiel... cem por cento. E assim é HORTON E O MUNDO DOS QUEM!

Jim Carrey adiciona bem mais do que seus talentos de super-astro no papel de Horton. "Jim tem um entusiasmo e um humor impressionante, o que ajudou a manter Horton tão doce e amável quanto nos livros", conta o diretor Jimmy Hayward. "Ele é criativo e apaixonado, e realmente mergulhou no personagem".

Hayward continua: "Jim se entrega por inteiro a tudo o que faz. Ele interpreta cada cena exatamente como o faria se estivesse diante das câmeras, e nos deu grandes dicas para a atuação de Horton. Portanto, pudemos extrair uma quantidade incomum de características do personagem a partir do desempenho de Jim ao dublá-lo”.

Dada a expressividade de Carrey, não é surpresa que tenha influenciado o visual de Horton. Dave Torres, principal responsável pela animação, conta: "Nos estágios iniciais do desenho, Horton apresentava uma boca menor. Porém, quando Jim assumiu o personagem, ele se tornou muito expressivo; de fato, Jim nos levou a alargar os limites de expressividade de um personagem de animação".

A principal relação de Horton na história é com o Prefeito de Quemlândia, a quem Horton nunca vê e que, por sua vez, também não pode vê-lo. Ainda assim, eles formam uma dupla notável, repleta de entusiasmo, amizade e humor, embora os riscos que correm sejam de vida ou morte. Enquanto Horton empreende sua jornada para garantir segurança a Quemlândia, o Prefeito – voz de todos os habitantes da cidade – arrisca tudo para convencer seus eleitores dos perigos futuros.

O Dr. Seuss apresenta o Prefeito de forma memorável como "devotado, justo e um pouco esquisito". O Prefeito e sua esposa tem crianças de sobra. E como! São pais orgulhosos de 96 filhas e um filho. A prole é apresentada num desfile interminável em que estão sentados em cadeiras ligadas a uma correia de transmissão, que circula em torno da mesa, de forma que cada um tenha uma audiência breve, porém impactante, com o Prefeito; É uma procissão imaginativa que reporta a uma cena de um musical de Busby Berkeley.


Steve Carell, segundo o também diretor Steve Martino, empresta a todos os seus personagens um senso de humanidade, como o eternamente ingênuo chefe de escritório Michael Scott em uma série de TV, e, agora, o assediado e pressionado Prefeito. "Todos os personagens de Steve possuem um coração belo; você torce por eles", observa Martino.

"Gostamos de ver os personagens de Steve na luta", acrescenta Jimmy Hayward. "Vê-lo ‘rodar pratos’ é um prazer. Ele introduz a dose certa de ‘Steve’ em cada linha do diálogo. É o Quem que a gente realmente passa a conhecer; assim, você deseja se identificar com ele, e graças a Steve, você o faz".

Carell descreve o Prefeito: "Ele é gentil, generoso, bem-intencionado, com muita coragem interior. Ele é um homem comum, um cara tentando fazer o melhor numa situação difícil". O ator reconhece particularmente as bases filosóficas de Horton ao insistir em que uma pessoa é uma pessoa, não importa seu tamanho. "Isso realmente diz respeito ao mundo que nos cerca – não importa o quão diferentes sejamos por fora, se houver decência, cuidado e compromisso, as coisas podem ser realizadas. É uma mensagem boa, doce, sólida, baseada na gentileza. E é isso que eu amo nele", diz Carell.

O orgulho e a alegria do Prefeito estão em seu filho Jo-Jo, o menor morador de Quemlândia. O Prefeito tem grandes planos para seu pequeníssimo filho, e o prepara para dar continuidade ao legado da família, assumindo a liderança da cidade quando o Prefeito se aposentar. Jo-Jo, porém, deixou absolutamente claro que não pretende assumir a carreira do pai. Em vez disso, o jovem taciturno persegue algo muito, muito diferente e especial.

A maior ameaça à busca de Horton – e, por sua vez, à sobrevivência de Quemlândia – é a Canguru, que "criou todas as leis e impôs todas as regras, proclamando-se líder da floresta de Nool". Ela possui um temperamento azedo e uma mente fechada, e insiste em que "se você não consegue enxergar algo é porque isso não existe". A filosofia fechada da Canguru gera conseqüências potencialmente graves para Horton, para o Prefeito e para toda Quemlândia.

No entanto, será ela uma vilã? Martino não está tão certo assim. "Ela possui sua ideologia, não é uma vilã. Ela é equivocada, mas não maldosa", ressalta.
Em uma cena memorável, a Canguru, no melhor estilo "tirana da selva", profere um sermão – na verdade ela grita com toda a força de seus pulmões – sobre a impossibilidade da existência de Quemlândia. A seqüência utiliza toda a impressionante capacidade vocal e o talento cômico da legendária Carol Burnett, que assume o papel interpretando-o no seu estilo. "Carol tem dutos!", diz Hayward da atriz, cujos momentos memoráveis de sua longa carreira de variedades televisivas incluem um "grito de Tarzan" que prenuncia suas vocalizações como a Canguru. "Há um sentido muito libertador em gritar com a força máxima dos seus pulmões... e ainda ser pago por isso", diz ela.


Voltando ao assunto da alegada perversidade da Canguru, Burnett aponta: "Quando você interpreta um vilão, não vê o personagem como perverso. O vilão não se enxerga como maldoso. Ele vê a parte boa, ou seja, que é justo em seus sentimentos e pensamentos. E que, se todos simplesmente o ouvissem e concordassem com ele, o mundo seria maravilhoso".

"A Canguru é muito controladora e teimosa", admite Burnett. "Ela governa a floresta com punhos de aço. Manteve seu filho Rudy em sua bolsa por, bem, muito tempo; ela não permitia que ele saísse do ‘quarto’". (Algumas crianças se sentem prisioneiras dos pais; é possível que a queixa de Rudy seja legítima).

O braço-direito da Canguru é Vlad Vlad-I-Koff, um enorme urubu de traseiro preto, penas oleosas e retalhadas e um bico grande e irregular. Fala com forte sotaque -russo. Vlad não é um gênio do mal, ele é somente maldoso. "Vlad se move como um lagarto ou um morcego", diz Jimmy Hayward. "Tudo para ele é baseado no instinto. O personagem é uma estranho mistura de influências culturais engraçadas. É como um gangster de conjunto esportivo marrom aveludado, usando correntes de ouro.

Will Arnett (Arrested Development), que interpreta Vlad, comenta que o personagem é "uma espécie única de pássaro, um sujeito perigoso, um matador de aluguel. Pensa que é descolado, mas está ultrapassado. Ele acha que está no topo da última moda da cultura pop".

"Sinto-me atraído por personagens ligeiramente arrogantes e também bem idiotas", continua Amett. "Essa é uma boa combinação. Não para a vida, mas para a comédia. Para a vida, é realmente uma combinação triste. Eu adoro pessoas super-arrogantes e, ainda assim, sem consciência de quão idiotas são".

Vlad pode não ser o bico mais afiado da selva, mas representa uma ameaça para Horton e para Quemlândia. Ele consegue entrar e sair das árvores como um guerreiro X-Wing – você quase ouve os motores a jato –, e em uma seqüência eletrizante ele caça Horton pela selva. "Construímos a cena como um filme de terror clássico", comenta Hayward. "Não é, certamente, uma cena sangrenta ou de terror, mas apresenta bastantes risadas e surpresas".


A cabeça do clã Wickersham é Yummo, interpretado pela voz de Dan Fogler, vencedor do Tony, que duplica seu prazer fazendo também o papel de Presidente do Conselho de Quemlândia. Fogler divertiu-se com os dois papéis, mas declara que Yummo é mais próximo de seu coração. "Eu sou do Brooklyn, e Yummo é Brooklyn, duro e da rua", explica.

Não faltam adversários a Horton. Porém, ele tem um melhor amigo e confidente em Nool: Morton, o rato, que tenta agir como voz da razão para seu camarada grandalhão. "Bem, você está falando com uma planta, e isso não me parece legal", avisa o roedor experiente a Horton. Seth Rogen, um dos mais brilhantes atores e roteiristas da comédia atual, empresta ao personagem sua especial sensibilidade torta. "Morton pode ser suscetível a pressões de seus pares", diz a estrela de Ligeiramente Grávidos e ator e roteirista de Superbad – É Hoje.

"De volta a Quemlândia, enquanto o Prefeito tenta convencer os habitantes sobre os perigos que a cidade enfrenta, a esposa do Prefeito, mãe equilibrada de 97 filhos, mantém um clima de harmonia em casa. A forma aparentemente tranqüila com que a personagem lida com explosivos assuntos domésticos agrada a qualquer pai; certamente agrada a Steve Marino. "Tenho duas crianças e isso é um desafio", comenta. "Imagine lidar com 97!"

Amy Poehler, de Saturday Night Live , esposa de Vlad Vlad-I-Koff na vida real – Will Arnett – faz uma personagem engajada que chama a atenção do marido por seu comportamento agressivo, mas sempre o faz com compreensão e senso de humor. "Amy interpreta a personagem de maneira contemporânea e real, porém com uma pequena ponta de ironia", comenta Martino.

Ela conta: "Fiz muitos papéis malucos em minha carreira, muitas personagens conturbadas. Sally, no entanto, é bastante estável. Ela mantém o marido com os pés no chão de um modo muito gentil. Ela precisa fazê-lo, pois é a cabeça dessa família gigantesca. Ela é a caixa de ressonância de seu marido. Porém, está um pouco preocupada com ele; será que está ficando maluco com essa corrida frenética atrás de avisos de uma possível maldição?"

Apesar das dúvidas de Sally, há realmente algo errado em Quemlândia. Para confirmar suas suspeitas, o Prefeito procura a Dra. Mary Lou LaRue, cientista amalucada, porém inteligente, da Universidade de Quem. A Dra. LaRue usa óculos de segurança grossos, cabelos grandes de um vermelho escuro, e lhe faltam certas habilidades sociais básicas. Tudo para ela tem a ver com a ciência. Isla Fisher, que circula facilmente entre comédias como Penetras Bons de Bico e dramas como O Vigia, observa que Mary Lou é a única Quem (além do Prefeito) que "conhece totalmente as ramificações das mudanças climáticas repentinas de Quemlândia (originárias das perigosas viagens de Horton através de Nool). Ela foi a primeira a aderir às crenças do Prefeito sobre potenciais maldições e penumbras". Do alto de seus 1,57 metro, a estrela pequenina acrescenta: "O ditado de que ‘uma pessoa é uma pessoa, não importa o tamanho’, é de relevância particular para mim".

Do inteligente ao…nem tanto. Conheça os Wickershams, um clã de símios com uma mentalidade humana muito familiar. "Eles são, em essência, um bando de caras engraçados", diz Hayward. "Não são vilões clássicos. Mas quando as coisas começam a ficar difíceis para Horton, os Wickershams se divertem. Eles vivem no lado sombrio da natureza humana".

>>>Leia a crítica de HORTON E O MUNDO DOS QUEM! aqui!

4.3.08

Pus o chapéu e Indiana voltou

No dia seguinte à entrega do Oscar 2008, Harrison Ford concedeu uma entrevista como parte da primeira rodada de divulgação de INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL, um dos filmes mais aguardados do ano, com estréia prevista para maio em Cannes. Ele falou sobre como foi se reunir mais uma vez com a equipe dos três primeiros filmes da série, em que tipos de produção prefere trabalhar e ainda respondeu sobre suas opiniões políticas.

Aos 65 anos, Ford fala sobre o personagem com a mesma vivacidade e empolgação de 19 anos atrás, quando a terceira parte da aventura foi lançada. A animação é ainda mais evidente quando o assunto é a poderosa equipe reunida para o retorno do herói: Steven Spielberg, George Lucas, a produtora-executiva Kathleen Kennedy e o produtor Frank Marshall, pessoas que, segundo ele, são como uma “família”.

O resultado dessa forte união aparece nas telas na forma de um vigoroso herói que não pensa em aposentar o chicote. Desta vez, o antropólogo vivido por Ford mergulha na mitologia maia para encontrar um lendário crânio de cristal que pode lhe revelar poderes magníficos. Além disso, Indiana volta a lidar com figuras de seu passado, como o filho Mutt Willians (Shia LaBeouf), que em pouco tempo se envolve nas aventuras do pai. O filme foi rodado no Novo México, no Havaí e em Foz do Iguaçu.

Spoiler: Há alguma complicação para a volta de um personagem e de um filme de ação como esse 20 anos depois, além, óbvio, da passagem do tempo?
Harrison Ford: Hoje, o Indiana Jones tem um conhecimento, uma visão diferente das coisas. Ele é um personagem que sempre pode ser mais explorado, tem ótimos relacionamentos e sempre algo novo para mostrar. É ótimo representar de novo o personagem, em um filme para a nova geração. Quando terminei de me vestir, toda essa experiência e perspectiva voltaram. Pus o chapéu e Indiana voltou. E ainda bem que a roupa original ainda me serviu. Consegui manter a mesma forma por 20 anos, o que é uma façanha. Foram 80 dias de filmagem com um só de folga. Mas tudo correu bem.

Spoiler: As filmagens podem ter levado menos de três meses, mas o roteiro virou novela e parecia que nunca ficaria pronto...
Ford: Na verdade, tínhamos pensado no projeto há cerca de 12 anos. Mas não deu certo. Demorou certo tempo para que eu, George Lucas e Steven Spielberg encontrássemos um jeito de juntar todos, de forma que o projeto fosse interessante para todo mundo, que o roteiro valesse a pena. E tinha de ser um grande filme, porque a expectativa em torno dele é muito grande.

Spoiler: Por que tanto zelo e preocupação, já que o personagem é querido e tem gerações de adoradores?
Ford: É exatamente por ele ser especial para mim e para o público. São os espectadores que chancelam meu trabalho com seu dinheiro nas bilheterias. A história tem de ser boa, e quem a conta também. Caso contrário, o público escolhe outro contador. É simples assim. Não posso ser aquele tipo de ator que coloca um nariz de borracha ou maquiagem pesada para parecer outra pessoa. Acredito que meu público goste de me ver – jovem ou um pouquinho mais velho –, e tenho de atender a esse tipo de demanda. Por isso, fiz todas as cenas de ação. E o filme precisa valer a pena, pois seria um desrespeito filmar uma história qualquer só por dinheiro.

Spoiler: Aos 65 anos, você ainda interpreta heróis de ação. Como consegue isso? A idade não atrapalha?
Ford: Acho que é o que me mantém saudável e ativo. Eu gosto muito de fazer isso. Não malhar pesado, só quando tenho de fazer um personagem que me exija isso. Aí, faço bastante exercício, mas por um tempo. Para mim, é mais uma questão de manter tudo em cima, fazer com que o corpo siga trabalhando. Normalmente, vou à academia três vezes por semana e fico lá por 40 minutos. Gosto de jogar tênis também. Coisa leve.

Spoiler: O personagem Indiana Jones, às vezes, é politicamente incorreto. Ele leva alguns objetos históricos dos países por onde passa. O que você acha disso?
Ford: É verdade, eventualmente ele rouba algumas relíquias. Mas, antes de tudo, ele é um arqueólogo. Sua intenção inicial é estudar os objetos, e não roubá-los. Ele se interessa por aprender, é fascinado pelo mistério dessas coisas. Ele não usa as pessoas, não abusa dos lugares por onde passa. Mas, enfim, ele não é perfeito, erra de vez em quando. É o que o torna interessante.


Spoiler: E o professor de arqueologia tem planos de se aposentar?
Ford: Esse assunto nunca foi mencionado. Ainda há muito o que ser explorado com Indiana Jones (risos)!

Spoiler: Sua imagem é associada a heróis: Indiana, Han Solo (STAR WARS), Jack Ryan (JOGOS PATRIÓTICOS)... Você gosta do conceito de herói?
Ford: Tenho orgulho de Indiana Jones. Han Solo foi importante, embora não deseje voltar a ele, pois ele era meio bobo. E Jack Ryan eu também voltaria a fazer, tem muito a ser explorado. Porém, ser herói não faz sentido. Ninguém assina contrato para viver um “herói”. Vivemos personagens e pessoas que, às vezes, precisam praticar atos de heroísmo. Mas é pretensioso considerar-se um herói. Um dia, alguém decidiu que precisávamos de heróis no cinema e, a partir daí, todo filme ganhou um. Mas muita gente se esquece de que herói mesmo é um bombeiro que se arrisca por uma criança.

Spoiler: As pessoas deixaram de ir ao cinema para ver um ator em especial?
Ford: A década de 80 foi um dos períodos mais saudáveis para os filmes. Não existia DVD, o VHS estava começando e as pessoas iam ao cinema, pois era o único jeito. Hoje, criaram-se vários públicos. Há quem goste de ficar em casa, há quem continue seguindo atores e há aquele pessoal, especialmente jovens, que gosta de sair e aproveitar o bom e velho escurinho do cinema. Assim, os jovens se tornaram os espectadores mais consistentes.

Spoiler: Quanto a ser astro, houve mudança nestes 20 anos?
Ford: Os jovens têm afinidade com os atores da idade deles, pois querem ver a história deles mesmos. Não faria sentido me ver fazendo de conta ter 30 anos. O público precisa de caras da minha idade.

Spoiler: Acredita em uma chance de mudança nos EUA neste momento de eleições?
Ford: Claro. É necessário reinventar nossa economia, criar mais empregos para os jovens e voltar a prosperar. Precisamos de mudança, de disciplina focada, e parar de fazer um monte de coisas que estamos fazendo, como desperdiçar dinheiro em áreas erradas. O país estabeleceu objetivos altos, embora não cheguemos muito perto deles. Mas perdemos nosso ideal ao longo dos anos. É como se ele tivesse se desgastado, assim como os rostos no Monte Rushmore (a montanha onde foram esculpidos os rostos de quatro presidentes americanos). Este país sempre funcionou bem sob uma “liderança messiânica”, que recobra os ideais. Agora, temos este jovem líder, poderoso e idealista, Barack Obama, se erguendo. Ele pode dar um novo coração a este país e operar a mudança de que precisamos, e rápido.

Spoiler: De onde você tirou inspiração para compor Indiana Jones?
Ford: Construo o personagem quando estou na frente da câmera, com a jaqueta de couro, o chapéu e o chicote. E tento entender a moral do personagem.

Spoiler: Você pretende continuar investindo em produções em que atua como o herói da história?
Ford: Nenhum desses filmes que eu faço são de ação. Eles talvez exijam um pouco mais de força física. Em Guerra nas Estrelas, não fiz mais do que correr e atirar nas pessoas. Indiana Jones tem aventura e fantasia, mas não é um filme de ação. Em Jogos Patrióticos também não fiz um herói - o protagonista tenta proteger a família, tenta se manter longe dos problemas. Nunca fiz, de verdade, um filme assim. Nenhum desses tipos que eu tenho interpretado é herói. E não procuro isso. Estou focado nos personagens e não nesse título. Eu resisto ao rótulo.

Spoiler: Apesar disso, você pilota aviões...
Ford: É, mas não estou interessado no risco. As pessoas acham que pilotar aviões é um grande perigo. O meu grande negócio é saber dosar o risco, ter responsabilidade. A liberdade e a independência de voar, de cuidar da sua vida e talvez da de passageiros, ver o mundo de uma outra forma, aprender coisas novas... Essas coisas é que são o grande negócio pra mim.

Spoiler: O que você acha desse revival de heróis em Hollywood?
Ford: É verdade... Temos Rocky, Rambo... Não sei. Talvez isso signifique que não existam tantos papéis para atores mais velhos. Acho que eles são heróis de sucesso, há público para eles, há toda uma expectativa sobre isso.

Por Bruno Segadilha & Fábio M. Barreto (Revista Época)

29.2.08

Max Von Sydow morre na página 25

Porto: Max Von Sydow teve 13 vidas no cinema agora órfão de Ingmar Bergman, mas essa "experiência" não é um daqueles casos em que o cinema é maior do que a vida. É um daqueles casos em que a vida é maior que o cinema. 51 anos depois dO SÉTIMO SELO, o filme em que Bergman o coloca jogando xadrez com a morte e... conseqüentemente perder (mas bem depois da página 25), ainda não lhe aconteceu nada insubstituível nessa iconografia, apesar de trabalhar com John Huston (CARTA AO KREMLIN e FUGA PARA A VITÓRIA), Sydney Pollack (OS TRÊS DIAS DO CONDOR), Steven Spielberg (MINORITY REPORT - A NOVA LEI), David Lynch (DUNA), Wim Wenders (ATÉ O FIM DO MUNDO), Lars Von Trier (EUROPA), Bertrand Tavernier (LA MORT EN DIRECT) e Woody Allen (HANNAH E SUAS IRMÃS).

Woody Allen? “Foram duas semanas. Não é possível comparar duas semanas de Woody Allen com 20 anos de Bergman. Não seria justo”. Julian Schnabel (fizeram O ESCAFANDRO E A BORBOLETA no ano passado)? “Sim, um diretor magnífico, mas de novo: foi um dia de trabalho. Não posso comparar Bergman com nada. Foi o único cineasta com quem trabalhei continuamente. Fui terrivelmente mimado”.

Tem 78 anos, agora, na vida real (nasceu em 10 de Abril em Lund, na Suécia). Teve 92 anos em O ESCAFANDRO E A BORBOLETA. É um velho, e este cinema não é para velhos: “Que papéis me oferecem nesses dias? Avós - pais, na melhor das hipóteses. E os avós estão sempre muito doentes no início do filme e depois morrem na página 25”. Não foi o cinema de Bergman (de quem também foi avô, em AS MELHORES INTENÇÕES, de Bille August) que fez dele um velho. Mas foi o cinema de Bergman que fez dele um ator “impressionantemente alto e impressionantemente estrangeiro: Em 1957 eu entrei num filme de Bergman e Hollywood percebeu minha existência. E em Hollywood eu sempre fui o estrangeiro. Os estrangeiros dão bons vilões com sotaques sinistros. Eu dei um bom vilão”.

Também deu um bom padre: “Trabalhei com o Bergman e os americanos olharam para aquilo e disseram: Ah... Um diretor sueco... Sério... Religioso... E este ator... Dá um ótimo cruzado... O que aconteceu depois? Me convidara para fazer Jesus e assim foi em A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS. E depois os produtores sem muita imaginação e preocupados em não perder dinheiro, optam sempre pelo seguro: Se precisarem de um padre, procuram atores que já fizeram padres, de preferência com algum sucesso, e encontram Max Von Sydow. E então o Max Von Sydow faz cruzado, Jesus, padre, bispo, papa e vigário. Tive de pôr um ponto final nisso. Há algum tempo que deixei de aceitar papéis desses". Há algum tempo, mesmo: Em 1982, já não quis ser o bispo de FANNY E ALEXANDER (e agora lamenta não ter aceitado).

Max Von Sydow esteve completamente "em casa" no cinema de mulheres que foi o cinema de Ingmar Bergman - tão completamente que Bergman o chamou para participar nos três filmes que rodou na ilha de Faro (A HORA DO LOBO, VERGONHA E A PAIXÃO DE ANA), onde foi viver a perfeita vida sueca depois de esvaziar o apartamento de Estocolmo.

E aconteciam coisas nessas filmagens que nem ele nem Bergman conseguiam explicar: "São matérias que se movimentam num nível muito irracional: Era uma relação de trabalho, mas também era uma relação de amizade. E também era uma questão de profunda admiração. É difícil falar sobre isso, foi demasiado importante para mim. Particularmente durante os 20 anos que passamos juntos, mas também agora, a esta distância. Eu me fiz ali”, explica.

Ainda hoje, meio ano depois da morte de Bergman, há coisas que parecem de fato carne da mesma carne e sangue do mesmo sangue. Bergman disse uma vez: “Nós Tínhamos uma relação enigmática. Ele foi tremendamente importante para mim. O exibicionismo que há agora nos filmes vai passar. Com o tempo, as pessoas voltarão a respeitar o desprendimento sutil que há entre Max e os meus loucos. Se esse desprendimento não existisse, os meus filmes teriam sido insuportáveis. Isto é cinema: um ator não tem de ser um louco, tem de agir como um louco". Agora, Max Von Sydow falou e voltamos a ouvir a voz de Bergman: “Tanto me faz ser o bom ou o vilão. Não temos de gostar das personagens que representamos: O ator não é aquela pessoa, apenas age como ela”.

Ser um homem naquele cinema de mulheres “não era assim tão diferente de ser um homem na vida real”: Estar naquele cinema é que era “diferente”: “Ele tinha uma extraordinária capacidade de conseguir que os atores e equipe fossem entusiastas do projeto. E tinha também uma disciplina de trabalho muito rígida, com a qual acho que todos aprendemos, e que é profundamente produtiva para este tipo de trabalho - e que era determinante do teatro”.

Max Von Sydow e Ingmar Bergman conheciam-se desde outro mundo mais radical e mais primitivo - Bergman o viu em A ROSA TATUADA, de Tennessee Williams, numa produção do Teatro Municipal de Helsinborg, e quis trabalhar com ele imediatamente. “Não sei porquê, mas por alguma razão eu não me via como ator de cinema. Já tinha feito dois ou três filmes (o primeiro em 1949), mas mantive-me nos teatros municipais por mais nove anos. Quando decidi ser ator, decidi ser ator de teatro". E foi, contra a ordem natural das coisas: “Cresci numa pequena cidade no Sul da Suécia onde havia um ou dois cinemas, mas nenhum teatro. Não era uma coisa que interessasse aos meus pais: eram muito antiquados. O meu pai tinha 50 anos quando eu nasci. Era um professor universitário, e tenho certeza de que tinham planejado para mim uma coisa dessas, uma carreira acadêmica. Mas quando eu tinha 14 anos, uma cidade vizinha abriu um grande e moderno teatro municipal e a escola onde estudava, levou os alunos para ver SONHOS DE UMA NOITE DE VERÃO. Para mim foi uma revelação total”.

Ainda prefere o teatro - já não tem é disciplina. “Sou demasiado preguiçoso. Não quero ficar preso a um projeto que me obrigue a estar no mesmo lugar meses a fio. Uma peça bem-sucedida pode ficar em palco para sempre. É tempo demais. Nessa fase prefiro estar dois dias num filme e depois reconquistar a liberdade”, admite.

E assim vai... Dois dias no Porto (sempre com a mulher, a francesa Catherine Brelet). Mais dois em Santiago de Compostela, mais dois em Nova Iorque onde Martin Scorsese tem planos para ele (Quais? “Ainda não posso falar sobre isso”). Amanhã, quando começar uma retrospectiva em sua homenagem no Festival Internacional de Cinema do Porto (Portugal), ele já estará do outro lado do mundo, já sabendo em que página morre no cinema de Scorsese.

>>>Leia a crítica dO SÉTIMO SELO aqui!
>>>Leia a crítica dO ESCAFANDRO E A BORBOLETA aqui!

27.2.08

A vida pulsante dos salões de baile

Antes mesmo de CHEGA DE SAUDADE ser um projeto bem definido, uma coisa já era certa para a diretora Laís Bodanzky: O seu segundo longa-metragem se passaria num universo tão presente na narrativa que, de pano de fundo, se converteria em personagem.

Na entrevista abaixo, a cineasta conta como foi atraída pelos salões de baile e relata a complexidade enfrentada numa produção em que a dança e a música são elementos protagonistas. Laís também fala sobre o ângulo feminino predominante no filme, entre outros temas:

Spoiler: Quais são as principais características de CHEGA DE SAUDADE?
Laís Bodanzky: A meu ver este filme é feminino, e se relaciona muito com este público. Aborda questões universais, mas de um ângulo próprio das mulheres. Trata de situações alegres e dolorosas. Quem vai ao baile em busca de um par entra no jogo da vida, marcado por situações ambíguas e sentimentos conflitantes. Você ganha, você perde. E para ganhar, muitas vezes tem de ceder em algo. Neste contexto, existe a verdade da esposa, e a verdade da amante. A razão da casada, e a da solteira. A vantagem da arrojada e a da tímida. Sem certo e errado. O benefício desta aposta é que estas pessoas conquistam a chance de terem momentos felizes.

Spoiler: Que tipo de baile o filme mostra?
Bodanzky: O filme contém características de diversos salões de bailes. Há ingredientes tanto dos chamados bailes da terceira idade – que na verdade são freqüentados por pessoas dos 30 e 40 anos em diante – quanto de outras casas de forró, brega e samba-rock onde o público é mais jovem. Nosso salão é como a cidade de São Paulo, que é uma salada cultural, que tem representantes de várias regiões do país e do mundo convivendo em harmonia. Isso, pra mim, é lindo. Pode ter japonesa dançando com negro; ruivo europeu paquerando uma senhora de traços indígenas...

Spoiler: Você se identifica, em algum nível, com os freqüentadores dos bailes?
Bodanzky: Eu sou fruto desta mistura. Minha mãe nasceu na Bahia e meu pai em São Paulo. Mas ele aprendeu a falar alemão antes do português. Meus avós paternos vieram da Áustria um pouco antes da Segunda-Guerra. Além disso, sempre gostei de dançar. Fiz aula de bale clássico e jazz. Sou de uma geração que recuperou o gosto pelos bailes. Peguei uma boa fase do brega e forró. Freqüentei casas na Vila Madalena em que a gente dançava ao som ao vivo do Waldick Soriano. Nesta época sentia a mesmo frisson que descobri nos bailes tradicionais.


Spoiler: Foi aí que você notou um mundo pródigo em personagens?
Bodanzky: Pois é, este universo extremamente rico me deu a oportunidade de rodar numa locação-personagem, e fazer um filme de personagens. Eu tinha o desejo de filmar num ambiente que de tão característico é parte integrante, e talvez principal, dos acontecimentos. E que é determinante para o desenho das demais personagens.

Spoiler: Como foi trabalhar com um elenco que mistura nomes históricos e novas estrelas?
Bodanzky: Foi muito prazeroso, além de ser uma honra propiciar para parte do público a redescoberta de grandes atores. Todos atenderam ao convite com entusiasmo e se mostraram completamente disponíveis. Com a Tônia Carreiro e o Leonardo Villar fizemos várias leituras de roteiro. Com o Stepan Nercessian e a Cássia Kiss fomos a alguns bailes, para observar os dançarinos. Com o Paulo Vilhena e a Maria Flor houve mais espaço para experimentação e improviso. Foi um processo muito instigante.

Spoiler: E a convivência com os freqüentadores dos salões que participaram do filme?
Bodanzky: Foi sensacional. Trabalhamos com 150 pessoas que fizeram não apenas figuração. Nós o definimos como elenco de apoio porque eles foram essenciais para conferir ao filme a áurea e a alma dos salões de baile. Eles dançaram durante toda a filmagem, sem ler roteiro, se dedicando exclusivamente a bailar. Vestiram as próprias roupas que costumam usar nos salões. Demonstraram uma vitalidade impressionante!

Spoiler: Que impressões o universo dos salões lhe causa?
Bodanzky: O espírito dos bailes é carregado de uma mentalidade adolescente, só que sem a ansiedade da adolescência. Este é um estado de espírito muito legal. São pessoas que em geral têm problemas e sofrimentos da vida, mas não perderam a alegria, não entregaram os pontos. O ato do baile também é muito interessante porque é uma maneira de você se expressar na vida pela dança e pela música. Todos dançam muito bem. Quem freqüenta baile, adora dançar.

Spoiler: O baile é um ambiente transgressivo?
Bodanzky: Sim, mas uma transgressão madura. Eles não querem guerra, briga. Querem continuar conectados com a energia de vida. Com a libido pulsante. E uma libido sublimada pela música e pela dança. Muitas mulheres resolvem sua libido sem precisar ir para a cama com os homens. Na sensualidade da dança, na paquera, no olhar. Isso alimenta a libido, que está viva e com carga máxima, alimentada por meio de uma expressão artística.

>>>Leia a crítica no SPOILER MOVIES

Notas de uma Teerã Cult

As autoridades iranianas dizem que é antiiraniano. Marjane Satrapi diz que é pró-iraniano e não é possível não gostar do Irã vendo PERSEPÓLIS. É hilariante: Tem um “cover” de “Eye of the Tiger”. É terrível: Tem execuções, guerra. A protagonista é valente e covarde, deprimida e eufórica.

Há uma semana, dia 12 de Fevereiro, cerca de 70 pessoas encheram o pequeno centro cultural Ressaneh, em Teerã. Dois dias depois, mais 70 pessoas “apertaram-se” – o verbo é da Agência France Press - para caber lá dentro. E foi assim que uns 140 iranianos assistiram à projeção de um DVD.

Esse DVD continha o que muita gente chama uma autobiografia, mas a autora, Marjane Satrapi, prefere chamar autoficção. Nascida em 1969 no Irã, é tetraneta de um príncipe Qajar (mas, como ela própria diz, francamente, os reis Qajar tinham centenas de mulheres e milhares de filhos, que multiplicados pelos filhos que tiveram devem ter dado uns 15 mil príncipes, um deles pai da bisavó da mãe de Marjane).

Esta autoficção não recua tanto no tempo. Concentra-se entre 1978 e 1994, ou seja, é Marjane dos 10 aos 24 anos, desde as vésperas da revolução islâmica até à ida para França. E foi em França que a sua biografia se transformou em autoficção. Recém-chegada a Paris, Marjane contava tantas aventuras da infância no Irã aos amigos desenhistas de HQ que eles lhe disseram para fazer uma própria HQ, para ver se ela ficava um pouco quieta (claro que esta é a versão dela). Marjane fez mesmo e PERSEPÓLIS, em quatro volumes, tornou-se um sucesso mundial (recentemente a revista “Les Inrockuptibles” colocou-o em 5º lugar no seu suplemento de 100 melhores Hqs de todos os tempos).

Depois lhe propuseram que transformasse os livros num filme de animação, e, com Vincent Paronnaud a co-dirigir, Marjane mergulhou de cabeça. Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve, que no filme fazem as vozes de Marjane e da sua mãe, vêem-na como Marjane, a Brava. Deneuve já tinha lido os livros, admirava Satrapi, e aceitou logo, quando a iraniana lhe telefonou para fazer a mãe da personagem. Ao saber disto, Chiara, que também lera os livros e ficara fã da auto-ironia de Satrapi, telefonou-lhe a pedir para fazer um teste de voz.

Além dos seus outros talentos, Chiara ficará assim imortalizada pela mais humana “cover” do “Eye of the Tiger” - “tam! tam-tam-tam!… Risin´up, back on the street…” -, um esplendor de desafinação que não existe no livro. A propósito, quem leu os livros, talvez note que Deneuve está um pouco austera demais, mas Chiara - Marjane adolescente e adulta - é maravilhosa.

As vozes foram gravadas antes dos desenhos serem feitos, para adequar os desenhos às vozes, o que obrigou a um trabalho intenso entre Satrapi e os atores. Deneuve diz que Satrapi sabia o que queria, e ainda assim lhe deixou toda a liberdade. Chiara diz que Satrapi não tem medo de nada, é a liberdade sem convenções. A outra mulher do filme é Danièlle Darrieux, em quem Satrapi pensou logo para avó, e pensou bem.

A formidável avó - que também é protagonista de outra HQ de Satrapi, “Broideries” - é uma das grandes personagens de PERSEPÓLIS e só por ela vale toda uma imagem do Irã além do clichê, desde as flores de jasmim no sutiã para cheirar gostoso, a desdramatização do divórcio porque o primeiro casamento é um ensaio para o segundo, e de resto os homens que a fizerem sofrer, explica ela à neta, são uns parvalhões.

Em Teerã, o filme passou em DVD e não em película porque é improvável que seja autorizado a estrear nas salas. Quem lá estava, acredita que aquela foi à única oportunidade “legal” de ver PERSEPÓLIS. Antiirariano demais, citou algumas autoridades.

Um dos espectadores de Teerã, citados pela AFP, um estudante, corrigiu: “Antiiraniano, não, antigovernamental”, e vários outros elogiaram o filme. Mas não se pode dizer que tenham visto tudo o que os demais espectadores verão, dado que a versão exibida foi “censurada” em algumas cenas de conteúdo sexual “. Um Teerã-cut, portanto.

As notícias não referem cortes de outro tipo, sendo que os conteúdos políticos - os milhares de presos e executados pela revolução islâmica, o milhão de mortos na guerra Irã-Iraque, o constante vigiar e punir dos costumes e da liberdade de expressão - são mais significativos em PERSEPÓLIS do que o “conteúdo sexual” - uns beijos, conversas de mulheres sobre dormir com homens e palavras como “pinto” e “seios”, aliás ditas pela avó (que dá uma receita para manter o peito rijo mergulhando-o em água com gelo, dez minutos, todos os dias).

O centro cultural onde o filme passou faz parte de uma rede criada por um antigo presidente da câmara considerado um moderado, que nos anos 90 ajudou a divulgar cultura alternativa e hoje está menos dinâmico. Os responsáveis do centro explicaram que quiseram projetar PERSEPÓLIS porque “quando um filme não é mostrado, as pessoas imaginam todo o tipo de coisas”. Esteve lá um crítico de cinema considerado conservador, Hussein Moazzezinia, que por um lado elogiou as qualidades técnicas e o roteiro, mas por outro, criticou a “visão parcial” de Satrapi, considerando que ela “foi seletiva ao omitir certos fatos, tornando seu filme pouco fiável e desonesto”. E concretizou: “Não podemos ignorar que milhões de pessoas aprovaram o ”imam” [Khomeini]. Não é verdadeiro dizer que a revolução foi feita refém por uma minoria”.

Em Cannes, foi ovacionado em pé e conta-se que Stephen Frears, presidente do júri, ficou em lágrimas. De certo, também riu. Aí, entre o humor e a angústia, livro e filme estão quites. Marjane Satrapi vive na França desde 1994, e a última vez que esteve no Irã foi em 2000. Em 2004, numa entrevista, tentou expressar em palavras as saudades que tinha do país natal: “Tudo, tudo. A começar pelas montanhas que rodeiam Teerã. Mas do que sinto mais falta é do sentido de humor iraniano. As piadas que mais me fazem rir são as iranianas. O apocalipse pode acontecer no Irã que no dia a seguir há piadas acerca desse apocalipse. E as pessoas… têm uma generosidade que nunca, nunca vi em parte alguma do mundo”.

10.2.08

Sobre Óleo e Novelas Chinesas

Berlim (Dia 2): Passado o pandemônio da presença dos Rolling Stones em Berlinale, o 58º festival começou para valer. Primeiro o chinês IN LOVE WE TRUST, de Wang Xiaoshuai, diretor da sexta geração que recebeu o Urso de Prata em 2001, por BICICLETAS DE PEQUIM. Na seqüência, SANGUE NEGRO, de Paul Thomas Anderson, com Daniel Day-Lewis. O filme é longo, quase três horas. Ocorreram problemas técnicos durante a projeção, o que motivou uma certa gritaria de protesto, mas ninguém arredou pé da sala...

Inspirado no clássico da literatura americana "Petróleo", de Upton Sinclair, o filme é um retrato magistral de CIDADÃO KANE, de Orson Welles, em que um homem cria sua fortuna destruindo tudo aquilo que havia contribuído para formá-la.

SANGUE NEGRO conta a história de Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis), desde o momento em que ele escava poços com as próprias mãos, no fim do século 19, no Oeste dos EUA, até se tornar um magnata do negócio que vive sozinho sua velhice em meados do século 20. Entre um tempo e outro, Plainview cria um filho, restabelece relações com um irmão, administra trabalhadores, negocia com sócios e concorrentes de um modo duramente particular -ou como quem enxerga "o pior nas pessoas", segundo suas próprias palavras.

A atuação de Day-Lewis foi premiada com um Globo de Ouro, um SAG e recebeu uma indicação ao Oscar (onde é favorito) e vem sendo freqüentemente definida como magnífica pela crítica dos EUA. Mas não é somente Day-Lewis que brilha... Paul Dano dá um show como o jovem pastor que vive às turras com o trágico anti-herói desta saga.

Anderson e Day-Lewis deram coletiva em Berlim. O diretor afirmou que "fazer um filme é como perfurar um poço de petróleo: Você não sabe se vai conseguir algo bom, mas continua tentando". "E, talvez, quando você consegue algo que parece bom, você fica ganancioso e continua perfurando”.

Mas o diretor não soube tomar como elogio a afirmação que mudou seu estilo. Daniel Day-Lewis veio em socorro do diretor e disse que, se ele muda, é em função das histórias que quer contar, mas a voltagem crítica é a mesma (e até se radicaliza, a cada filme). Quando perguntaram ao ator qual era sua expectativa em relação ao Oscar, foi a vez de P.T. Anderson frisar: “Gostaria que nos dessem todos os Oscars, e não apenas para Daniel”.

Também em competição, IN LOVE WE TRUST conta a história de uma mulher divorciada que descobre que a filha, uma menina de cinco anos, está enferma de leucemia. Embora tanto ela quanto o ex-marido tenham se casado de novo, a heroína lá pelas tantas resolve ter um filho com o ex, na expectativa de que ele possa ser o doador da medula que a garota necessita. A história é digna de uma novela de Manoel Carlos e um personagem, o ex-marido, chega a dizer que se sente dentro de uma “soap opera”.

O que faz a diferença é o olhar de Wang Xiaoshuai sobre a nova China. O ex-marido é um construtor de obras que estão parando por falta de dinheiro. O próprio problema da leucemia infantil preocupa as autoridades e vem sendo motivo de muita pesquisa nos últimos anos. Como diz o diretor, seu filme é universal - ele espera -, mas a realidade que filma é a chinesa. Trabalhando na corda-bamba da emoção, como se evita o melodrama? “É um mérito dos atores, que pesquisaram a fundo para seus personagens”.

A China venceu o Festival de Berlim no ano passado com O CASAMENTO DE TUYA (Também sobre a relação de um casal ameaçada por um problema de saúde) e provocou polêmica com o acossado pela censura LOST IN BEIJIN.

Por Luiz Zanin Oricchio (Estado), Silvana Arantes (Folha) e Agências Internacionais

8.2.08

Política e Rock´n´Roll

Berlim (Dia 1): Os Rolling Stones causaram um verdadeiro alvoroço na entrada do Hotel Hyatt para a coletiva de SHINE A LIGHT, o recente documentário de Martin Scorsese que inaugurou ontem o 58º Festival de Berlim. Os fãs fizeram fila na rua (congelada) apenas para vê-los passar, enquanto os jornalistas se acotovelavam para a entrevista com uma hora de antecedência. O tapete vermelho em si parecia um mercado persa, só que em vez de gritar: “Laranjas! Laranjas!” Uma dúzia de limão por um real", o pessoal gritava: Jagger! Jagger! Scorsese! Scorsese!

Berlinale é conhecida pelo seu teor altamente político. Para o presidente do júri deste ano, Costa-Gavras, estrela do cinema político por volta de 1970, isso se deve à própria cidade que, durante décadas, foi palco das tensões da guerra fria. E sem dúvida muitos filmes políticos serão apresentados em 2008, mas o festival também está celebrando a música: o rock sobre Berlim.

Madonna, Patti Smith, Neil Young, todos são convidados da Berlinale esse ano, mas duvido que Madonna, com seu FILTH AND WISDOW, provoque tanto frisson como ontem.

Na coletiva, Scorsese contou que ao terminar OS INFILTRADOS, estava tão confuso que decidiu pelo projeto de SHINE A LIGHT justamente para se desembaraçar do filme, que veja bem, lhe rendeu um Oscar. Muitos acharam o trabalho de Scorsese anônimo, dizendo que qualquer outro diretor de videoclipes teria feito um filme desses. Não é verdade. Solicitado a comparar Scorsese com Jean-Luc Godard, que o dirigiu em ONE PLUS ONE, documentando a criação da canção Sympathy for the Devil, Mick Jagger disse que ambos são grandes diretores, mas de estilos diferentes. Os dois filmes, de qualquer maneira, trabalham o tempo. Uma canção nasce diante dos olhos e ouvidos do público no filme de Godard. Uma profusão de canções atesta a vitalidade dos Stones em SHINE A LIGHT.

Jagger contou que propôs a Scorsese que filmassem o show de Copacabana, no Rio de Janeiro, porque achou que seria ótimo ter o registro "daquele grande show na praia, para passar em Imax [formato de tela gigante], mas Scorsese preferiu algo mais íntimo". O diretor explicou que sua escolha por um teatro pequeno foi porque ele gostaria de "não apenas filmar os Stones, mas mostrar a máquina armada para filmar os Stones".

SHINE A LIGHT foi exibido fora de competição. Talvez porque, com Stones e Scorsese juntos, seja difícil competir.

Por falar em competição, o júri de Berlim sofreu duas baixas: A cineasta dinamarquesa Susane Bier e a atriz francesa Sandrine Bonnaire abandonaram o barco. Segundo a justificativa dada pelo festival, Bier terá de ir aos EUA, tratar de assuntos relacionados ao seu próximo filme. E Bonnaire não poderia permanecer em Berlim durante todos os dias do festival, por isso teve de renunciar ao júri. O presidente do júri, Constantin Costa-Gavras, classificou as desistências de "um acidente" e disse que os remanescentes tentarão compensá-las sendo "mais inteligentes".

Costa-Gavras também contou que seu próximo filme será "um road movie sobre um homem que tenta chegar a Paris". Ele pretende estreá-lo no ano que vem, “em Berlim, ou em algum outro lugar", mas certamente fora de competição. "Acho que competir é algo que devemos fazer quando jovens”.

Por Luiz Zanin Oricchio (Estado), Silvana Arantes (Folha) e Agências Internacionais

30.1.08

Notas de um Faroeste Caboclo

O escritor americano vencedor do Pulitzer Cormac McCarthy já era conhecido por suas extraordinárias histórias passadas num oeste americano em transformação quando publicou, em 2003, o livro ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ. No coração da história encontram-se os temas mais recorrentes de McCarthy: o fim galopante do modo de viver no oeste dos EUA; os últimos resquícios de honra e justiça em um mundo despedaçado; a constante luta humana contra a desventura; o humor negro e violência dos tempos modernos; a ação recíproca de tentação, sobrevivência e sacrifício; e, somando à mistura, um toque de amor reconfortante e um fio de esperança na escuridão.

Os complexos personagens e temas simbólicos de McCarthy são tão presentes em ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ que apenas diretores com igual habilidade em contar uma história de forma rica, irônica e ressonante poderiam transformar a força do livro em surpreendentes imagens e diálogos. E é difícil imaginar melhores nomes para essa tarefa do que os vencedores do Oscar® por Melhor Roteiro com FARGO, Joel e Ethan Coen. Os Coen conheceram o livro de McCarthy através do produtor Scott Rudin (NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO). "Ele o trouxe até nós achando que poderíamos sentir uma afinidade pela história", lembra Ethan, "e nós gostamos mesmo do livro. Vimos que dava para criar algo com ele."

Os Coen, então, partiram para adaptar a história em uma estrutura cinematográfica, e o resultado foi um filme que os levaria a um novo território. "Há bastante humor no livro, apesar de não ser uma comédia", diz Joel. "É certamente muito sombrio – e essa foi nossa característica determinante. O livro também é bastante sangrento. Então, esse é, provavelmente, o filme mais violento que já fizemos."

No coração de ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ estão seus personagens – homens e mulheres que vivem em um oeste em rápida transformação, onde o descumprimento de leis levou a um novo mundo de tráfico internacional de drogas e antigas regras não mais se aplicam. Chocado com essa nova realidade, xerife Bell representa uma inconsolável nostalgia pela forma mais honrosa como tudo era antes. "O filme fala, em parte, da perspectiva do xerife Bell sobre o passar do tempo, e de envelhecimento e transformações", diz Joel Coen.


Considerando quem poderia viver esse contemplativo personagem, o vencedor do Oscar® e do Globo de Ouro por Melhor Ator Coadjuvante em O FUGITIVO, Tommy Lee Jones logo veio à mente dos irmãos Coen. "Xerife Bell é a alma do filme, e a região oeste faz, de forma fundamental, parte dele. Então, precisávamos de alguém que entendesse isso", comenta Joel. Ele continua: "É um papel que requer também um tipo de sutileza que apenas grandes atores possuem. Essa lista é bem pequena, então, quando se junta os dois critérios, o nome que surge é Tommy Lee Jones. Sendo texano, a região é parte do que ele é." Para Jones, o papel era irresistível, apesar de ter sentido uma hesitação inicial. "Já atuei muitas vezes como policial texano", reflete o ator, "então pensei bastante antes de aceitar o trabalho. Mas a atração de trabalhar com o material de Cormac McCarthy foi irresistível." Jones leu o livro de McCarthy pouco depois de ser publicado e já naquela época ficou intrigado – e mais ainda quando soube que os irmãos Coen adaptariam a história.

Para os Coen, escalar o ator que viveria Llewelyn Moss foi um desafio maior. Moss, veterano do Vietnã, é um texano decente que provavelmente nunca cometeria um crime – até se deparar com uma grande quantia de dinheiro de venda de drogas que parece pertencer a um grupo de homens mortos. Joel diz: "Nessa história, você tem o mocinho e o bandido, e Moss é um meio termo." Essa característica foi difícil de se encontrar. "Pensamos que seria fácil achar Moss", ri Ethan, "porque, na nossa cabeça, simplesmente precisaríamos de um garoto bonzinho. Mas é difícil incorporar isso sem parecer tedioso ou sendo de fora da região." Por fim, os diretores encontraram um ator que levava uma presença dinâmica, com um toque distinto do oeste, ao papel: Josh Brolin (PLANETA TERROR). "Josh cresceu em um rancho e por isso tinha idéia de onde Moss vinha", explica Ethan. Josh Brolin é fã de McCarthy e leu o livro muito antes de ver o roteiro. "É uma das histórias mais incríveis, violentas e bem escritas que eu já li", diz Brolin.

Formando o terceiro vértice do tenso triângulo moral está Anton Chigurh, o assustador e desequilibrado vilão que não deixa testemunhas por onde passa. O obscuro personagem precisaria de um ator capaz de alcançar extrema intensidade. "Queríamos um ator que conseguisse expor Chigurh de forma substancial, mas sem revelar muito, mantendo um certo mistério – daí, Javier Bardem (MAR ADENTRO)", explica Joel. Ao desenvolver o personagem, o ator espanhol trabalhou bastante com os Coen. "Conversar com Joel e Ethan mudou a minha perspectiva, e o personagem tomou forma de alguém mais interessante, complexo e engraçado", ele diz.
Ao lado desse trio de homens, estão duas igualmente interessantes mulheres.

Para o papel de Carla Jean, esposa de Moss, foi escolhida a atriz Kelly Macdonald, que surpreendeu os diretores durante o teste. "Ao mesmo tempo em que nosso discurso era de que não dá para fingir ser da região, chamamos Macdonald, uma atriz escocesa de Glasgow", ri Joel. Tommy Lee Jones também ficou satisfeito com a escolha: "Kelly faz o sotaque do Texas perfeitamente", comenta Jones, ator genuinamente texano. "Nos intervalos, ela era uma doce menina da Escócia, mas, quando as câmeras eram ligadas, virava uma garota texana bastante durona. Fiquei impressionado."


Outra relação familiar no filme é o do xerife com sua mulher Loretta, personagem essencial para ajudar a definir Bell. Quem vive Loretta nas telas é a atriz nascida no Arkansas, Tess Harper. "Loretta é a âncora que segura o xerife onde ele precisa estar. Ela é seu porto seguro na tempestade", comenta a atriz.

ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ se desenrola contra um dos cenários mais viscerais e mistificados dos Estados Unidos: a fronteira do Texas com o México, em que dois países são divididos pelas margens do Rio Grande. Para captar com autenticidade o local, a produção viajou para as secas planícies do oeste do Texas e para o deserto do Novo México, onde os Coen trabalharam mais uma vez com o diretor de fotografia Roger Deakins (O ASSASSINATO DE JESSE JAMES; A VILA; KUNDUN). "O cenário é um dos motivos que nos levaram a fazer o filme", diz Ethan Coen. "Rodamos nosso primeiro filme, GOSTO DE SANGUE, em Austin, mas também viajamos para o oeste do Texas, e ficamos atraídos pelo local antes mesmo de ler o livro." acrescenta Joel. "É um lugar com um histórico de violência e de ser, de certa forma, inóspito. Como em todos os livros de Cormac McCarthy, o local é também um personagem – e não pode ser separado da história", conclui.

Para aumentar a tensão de ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ, Deakins usou a iluminação como um meio de contar a história. "Gostei de contrastar o brilho dos exteriores com a escuridão dos interiores e a sensação desbotada da paisagem com as cores brilhantes do mundo noturno", ele diz. "Um dos maiores desafios foi fazer uma transição suave do amanhecer ao anoitecer no local da ‘entrega das drogas’ e no rio. Lidamos com isso da melhor forma possível filmando na luz do amanhecer e no cair da noite, e recriando um falso raiar do dia com iluminação artificial."

A filmagem propriamente dita teve início em Marfa, Texas, cidade mais conhecida como o local onde foi filmado o épico dos anos 50 ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE. Lá, o jovem desenhista de produção Jess Gonchor buscou com os Coen as locações certas para as cenas mais dramáticas do filme. Para Gonchor, a chave era a discrição: "Os Coen fizeram um trabalho tão bom com o roteiro que eu não quis roubar a cena de nada – eu só queria somar à história com o cenário que criei", diz. Um de seus maiores desafios foi criar a cabana de Ellis – onde o xerife Bell, à beira do desespero e precisando de conselhos, visita o tio, um xerife aposentado. Gonchor lembra-se: "Nós pré-fabricamos a estrutura em Santa Fé, onde Joel e Ethan podiam ver seu desenvolvimento. Depois, pintamos, envelhecemos, ornamos e levamos a cabana toda de caminhão para o Texas."


Apesar da grande distância entre as locações, das condições climáticas imprevisíveis, de criaturas venenosas do deserto e de altas temperaturas, usar locações autênticas mostrou-se inestimável, oferecendo a atmosfera pungente e solitária que faz a fronteira do Texas ser ao mesmo tempo tão cruel e poética.
Em seguida ao trabalho no Texas, a equipe foi para Las Vegas, não a cidade paraíso dos cassinos, mas uma cidade histórica do estado do Novo México, onde as atemporais ruas no estilo do oeste e icônica praça do centro da cidade puderam servir como diversas cidadezinhas texanas.

Lá foi também local de outra maravilha pré-fabricada de Gonchor, o posto de fronteira entre os EUA e o México que no filme vai de Eagle Pass, Texas, para uma pequena cidade mexicana. O falso posto de fronteira foi construído no viaduto da estrada University Boulevard, em Las Vegas, e foi preciso fechar a ponte e saída da estrada por uma semana enquanto a estrutura de aço de 22 toneladas era puxada e encaixada no lugar. Moradores de Las Vegas não se abalaram, mas turistas e motoristas de fora da cidade que passaram por lá ficaram intrigados com o posto de controle entre os EUA-México ter se mudado tanto para o norte, como se o Novo México fosse, afinal, realmente parte do México!

O aspecto visual de ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ também estende-se aos personagens, principalmente a Javier Bardem, que exibe no papel de Chigurh um contemplativo corte de cabelo, criado pelo cabeleireiro vencedor do Oscar® por AMADEUS Paul Leblanc. "Trabalhei bastante próximo à estilista Mary Zophres na criação desse visual para o personagem de Javier", diz Leblanc. "Queríamos que ele ficasse estranho e assustador, mas não exagerado. Então criei esse corte original para dar uma idéia de que ele é realmente misterioso – alguém que faz nos pensar "de onde veio esse cara?" – mas sem necessariamente mostrar que ele é um assassino. Digamos que é um corte dubiamente histórico – pode ser tanto do século 17 quanto dos anos 70", acrescenta.

Com detalhada preocupação tanto com o conteúdo do roteiro de ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ quanto com o visual de suas cenas e personagens, os irmãos Coen – também responsáveis pela edição do filme, sob o pseudônimo de "Roderick Jaynes" – fazem um belo casamento entre a complexa e freqüentemente bem-humorada voz de McCarthy com sua própria visão da história. O resultado é um trabalho incrivelmente cativante – e repleto de ação.

ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ concorre a 8 Oscars, incluindo Melhor Filme, Diretor e Roteiro Adaptado. Leia a crítica do filme no Spoiler Movies

25.1.08

Notas de Cão e Gato no Submundo

A lenda do contrabandista de heroína, pai de família, assassino e líder cívico Frank Lucas foi contada pela primeira vez em um artigo da New York Magazine escrito há sete anos pelo jornalista Mark Jacobson. O produtor executivo Nicholas Pileggi, roteirista de CASSINO e OS BONS COMPANHEIROS, havia apresentado Jacobson a Frank Lucas, que contou pessoalmente ao jornalista sua impressionante ascensão e queda.

Fascinado pelo artigo de Jacobson, o produtor vencedor do Oscar® de Melhor Filme por UMA MENTE BRILHANTE Brian Grazer ofereceu o projeto de um longa-metragem sobre a vida de Frank Lucas à Imagine Entertainment e, em seguida, convidou o vencedor do Oscar® por Melhor Roteiro Adaptado por A LISTA DE SCHINDLER Steven Zaillian para escrever o enredo. Zaillian passaria meses em contato com Lucas e seu implacável perseguidor Richie Roberts a fim de dar forma a uma história que abrangeu décadas. Para Grazer e Zaillian, o interesse não era apenas em Lucas – que acumulou dezenas de milhões com o tráfico de drogas – mas também em Roberts, cujo próprio destino acabou emaranhado com o do criminoso.

O ator abordado para viver Frank Lucas foi o vencedor do Oscar® de Melhor Ator por DIA DE TREINAMENTO e Melhor Ator Coadjuvante por TEMPO DE GLÓRIA Denzel Washington. Inicialmente, Washington criou resistência em retratar um homem cuja ascensão ao poder significou a morte de tantas pessoas, mas depois ficou cativado pelo roteiro e aceitou interpretar o personagem principal.

Mas ele ainda esperaria alguns anos para levar o papel às telas pois, em 2004, antes de começar a filmar, a Universal Pictures suspendeu o desenvolvimento de O GÂNGSTER. O produtor Grazer conta: "Fiquei arrasado por uma semana. Mas ainda acreditava no filme." E, com determinação, ele conseguiu trazer o diretor Ridley Scott (GLADIADOR) para o projeto, reativando-o. "Fui em frente com toda minha energia e dedicação. Tinha levado o roteiro a Scott sete ou oito vezes, e ele sempre gostava dele, mas o timing nunca era certo. Dessa vez – a nona ou décima – ele disse ‘sim’", explica Grazer. O diretor pediu que Richie Roberts fosse vivido nas telas pelo vencedor do Oscar® de Melhor Ator por GLADIADOR Russell Crowe e que Denzel Washington retornasse ao projeto para viver Frank Lucas. "Brian me disse que tinha conseguido Ridley. Ele é um dos melhores diretores atualmente, não dá para recusar", conta Denzel Washington, que finalmente começaria a interpretar o homem que foi de ladrão de galinhas a rei do Harlem.

O ator conta como se preparou para viver esse polêmico criminoso visto tanto como mártir quanto assassino: "Entrei em um quarto com Frank, liguei o gravador e conversei com ele. Mas eu disse: ‘Não me conte nada que eu não precise saber. Não quero ter que depor’", diz Denzel Washington. "O que me intrigou na história foi que ela não glorifica um traficante de drogas, e eu disse isso a Frank quando nos conhecemos", acrescenta o ator, que escreveu a passagem bíblica Isaías 48:22 ("Não há paz para os ímpios, diz o Senhor") em seu roteiro para lembrar-se da jornada e busca por redenção de Lucas.


Quanto à sua visão do filme, Russell Crowe conta que ficou interessado na forma como a história de Zaillian capta o tempo e local de uma corrompida Nova York. A corrupção era tão comum na Unidade Especial de Investigação de Narcóticos (SIU) que, segundo o artigo do jornalista Mark Jacobson, “em 1977, 52 dos 70 agentes que trabalhavam na divisão estavam ou na prisão ou indiciados”. Roberts era exceção à regra, e Crowe admirou isso.

Com os dois protagonistas escolhidos, a produção passou a buscar atores para interpretar os mais de 30 papéis do elenco de apoio, desde a família de Frank Lucas – cujos verdadeiros nomes e parentescos foram mudados no filme – até os inimigos do criminoso. O irmão mais novo e braço direito de Lucas, Huey, foi vivido por Chiwetel Ejiofor. "Ele era o parceiro de Denzel em PLANO PERFEITO, então já tinham um ótimo relacionamento de trabalho", diz Grazer. Outros integrantes da família Lucas com papéis proeminentes no filme incluem dois músicos relativamente novos no cinema: o rapper Common (A ÚLTIMA CARTADA) como o irmão de Frank, Turner, e o artista emergente de hip-hop T.I. como o sobrinho de Frank, Stevie.

Scott ficou impressionado com a forma como eles se adequaram às demandas de um filme: "Parece que atuar é um passo natural depois de cantar." A matriarca da clã, Mama Lucas, é a lendária Ruby Dee (FAÇA A COISA CERTA, indicada ao Oscar pelo papel). A atriz que cresceu no Harlem observa: "A época de Frank Lucas que O GÂNGSTER aborda me parece mais uma memória do que um filme." Para viver Eva, ex-Miss Porto Rico que Lucas gentilmente seduz para a vida do crime e com quem se casa, Scott convidou Lymari Nadal. A porto-riquenha formada em Química antes de virar atriz conheceu Eva pessoalmente e diz: "Tentei transmitir a forma como ela vê a vida. O mais importante para ela, eu acho, é sua história de amor e o quanto podia comprar, ou quanto dinheiro podia ter."

No lado oposto da família de Frank Lucas, estão seus desafetos. O vencedor do Oscar® de Melhor Ator Coadjuvante por JERRY MAGUIRE – A GRANDE VIRADA Cuba Gooding, Jr. foi chamado para interpretar o maior rival de Lucas no tráfico de heroína, Nicky Barnes. O ator resume o apelo tanto de Barnes quanto de Lucas: "Eles eram vistos como duas celebridades. Hoje as celebridades são esportistas ou atores, mas, naquela época, eram traficantes." Caracterizando o mafioso do dia, Armand Assante interpreta Dominic Cattano, a "pedra no sapato" de Lucas que, como todo mundo, fica chocado ao ver que um negro conseguiu levar heroína pura e mais barata para as ruas. "Cattano é um homem poderoso que acredita que ele e seu negócio estão acima da lei e de qualquer concorrente", explica Assante. Outro problema para Lucas é o policial Trupo, interpretado por Josh Brolin (ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ). O ator ficou curioso em examinar a mente desse "criminoso com um distintivo" que deixava qualquer pessoa vender drogas nas ruas, desde que recebesse um pesado suborno.


O detetive policial Richie Roberts, ao contrário do agente Trupo, era rigoroso na luta contra o crime. Escolhido para chefiar a Unidade Especial de Investigação de Narcóticos do Condado de Essex, Roberts precisa formar um grupo de agentes tão espertos quanto os criminosos que eles perseguem. Para esses papéis, Scott e Grazer convidaram os veteranos John Hawkes e Yul Vazquez, assim como RZA, co-fundador do grupo de hip-hop Wu-Tang Clan. Hawkes, que vive o detetive Spearman, entendeu que a agência liderada por Lou Toback, interpretado pelo ator veterano Ted Levine, foi "uma precursora do DEA [Drug Enforcement Administration], uma das primeiras forças-tarefas federais anti-drogas."

Mas, enquanto a vida profissional de Richie Roberts decola, a pessoal desmorona. Carla Gugino vive Laurie, a mulher de Roberts que decide deixá-lo. "Ela tenta pensar que ele vai mudar, mas percebe que isso não acontecerá e resolve morar com a irmã em Las Vegas, levando com ela o filho do casal", conta a atriz.

Com o elenco principal escolhido, Scott, Grazer e o desenhista de produção Arthur Max (CRUZADA e GLADIADOR) iniciariam o detalhado processo de recriar o Harlem e Vietnã do final dos anos 60 e início dos 70. A tarefa era ambiciosa, mas para Scott nada parecia impossível, nem mesmo filmar em 152 locações diferentes com quase 100 atores interpretando papéis com falas. A idéia do diretor era, como ele explica, "fazer tomadas abertas para conseguir um panorama geral do Harlem". Usando principalmente câmeras móveis, o diretor de fotografia Harris Savides (ZODÍACO e ELEFANTE) seguiu o que Scott descreve como um estilo "guerrilha de filmagem". Savides encarou o desafio de trabalhar com a costumeira propensão do diretor em usar o recurso multicâmera e rodou quase todo o filme em locações reais. Já o desafio do desenhista de produção Max foi encontrar as partes de Nova York que ainda lembravam a cidade do início da década de 70.

Para Frank Lucas, filmar no Harlem foi uma viagem a seus dias de glória – apesar de nem todos os seus antigos vizinhos terem lhe dado boas-vindas de herói. No set praticamente todos os dias, Lucas ficava sentado em sua cadeira-de-rodas, cercado pela família e pela nostalgia. Já a sensação de Russell Crowe durante as filmagens, num verão de mais de 38 graus, foi bem diferente de "nostálgica". "Subi e desci escadas usando um jeans da Levi’s com modelagem dos anos 70 no calorão de Nova York", diz o ator, que acabou com a calça encharcada de suor e, como ele explica, "tão justa que podia prender a circulação".


Uma das maiores cenas do filme foi a recriação da primeira luta entre Muhammad Ali e Joe Frazier no Madison Square Garden. Filmada no Nassau Veterans Memorial Coliseum em Long Island, a arena de mais de 16 mil cadeiras foi preenchida com figurantes em roupas de época – muitos atuando como os famosos que estiveram presentes naquela noite histórica. "Levamos semanas até encontrar as pessoas certas para os sósias das celebridades", explica o diretor de elenco de figurantes Billy Dowd. "Fomos a agências de sósias de celebridades, colocamos anúncios na Show Business e Backstage, jornais e Internet. Alguns foram muito difíceis de encontrar; alguns simplesmente vieram até nosso escritório." O filho de Arthur Mercante, o árbitro daquela luta, fez o papel do pai nas filmagens. Se encontrar as pessoas certas para representar as celebridades foi um desafio, vestir quase mil figurantes foi um feito para a figurinista vencedora do Oscar® por GLADIADOR Janty Yates "Usamos fotos do evento e fizemos réplicas de muitos trajes", explica Yates. "Percorremos Nova York em busca de smokings e vestidos de festa daquela época."

Além da cena da luta, foi também em Long Island que uma casa serviu de locação para o lar de Dominic Cattano. Já a real locação da suntuosa casa que Lucas compra para a mãe e da fazenda da família na Carolina do Norte foi o subúrbio Briarcliff Manor, a uma hora de Manhattan. E, quando as filmagens nos Estados Unidos terminaram, a produção viajou para o norte da Tailândia onde, a aproximadamente duas horas da cidade de Chiang Mai, foram filmadas cenas da viagem de Lucas aos campos ricos em ópio do Triângulo Dourado – interseção entre Burma, Tailândia e Laos. A equipe do desenhista de produção Max montou uma tradicional vila tailandesa e um celeiro de arroz no meio do campo de amendoim para representar o centro de processamento de ópio onde Lucas fecha seus primeiros acordos com fornecedores militares de drogas, permitindo que o criminoso compre diretamente da fonte e leve para os EUA quilos de heroína em fundos falsos de caixões que transportavam corpos de soldados.

Quanto à trilha sonora de O GÂNGSTER, o diretor Scott e o produtor Grazer buscaram músicas que representassem a realidade do mundo de Frank Lucas. "Queria que o filme trouxesse canções de lado-B de discos da época", diz Grazer. Ainda na área musical, depois de ver uma exibição inicial do filme, Jay-Z, astro do rap e presidente da Def Jam Records, ficou tão emocionado com o retrato de Denzel Washington como Frank Lucas que criou músicas inéditas inspiradas em suas próprias experiências passadas como bandido e traficante, uma vida de alguma forma paralela à do gângster Lucas dos anos 70. O trailer do filme já estava usando "Heart of the City", uma música mais antiga de Jay-Z, quando ele tomou essa decisão.

Com a filmagem principal, edição e trilha sonora finalizadas, a equipe e elenco de O GÂNGSTER chegam ao fim de uma jornada que teve início com um jovem humilde da Carolina do Norte que alcançou grande poder na cidade de Nova York. Sobre o que espera em relação ao público, o diretor do filme Ridley Scott diz: "Espero que se sinta completamente envolvido com esses dois grandes atores e com a forma como eles nos levam ao mundo dos dois personagens."

Cortesia da Paramount Pictures

18.1.08

Colin Farrell entra no mundo de Woody Allen

Park City (Dia 1): Colin Farrell, o notório terror das mulheres de Hollywood, tem uma nova paixão. "Eu tenho um filho e muitas pessoas acham que ele se parece comigo. Carinha de sorte", ele diz com orgulho. E deixa escapar uma sonora gargalhada irlandesa.

Mas nem sempre foi fácil para o ator de 31 anos rir: ele e sua namorada, a modelo Kim Bordenave, são pais de James Padraig Farrell, 4 anos, que sofre de uma rara desordem neuro-genética chamada Síndrome de Angelman, que prejudica a fala e a capacidade motora.

No ano passado James deu seus primeiros passos. "Não havia nenhum olho seco na casa", conta o ator. "Ultimamente ele tem se saído muito bem e está maravilhoso. Meu menino está em grande forma. Ele é um menino feliz e, se puder dizer honestamente que seu filho é feliz, então você é um sujeito de muita, muita sorte."

Em outras palavras, o bad boy de Hollywood está um pouco mais caseiro, apesar de em certos momentos ainda não saber ao certo onde é sua casa. Mas Farrell continua sendo um dos atores mais ocupados do cinema. Ele atua com Brendan Gleeson no previsto IN BRUGES, mas seu atual filme, com estréia nos Estados Unidos é CASSANDRA´S DREAM de Woody Allen, co-estrelado por Ewan McGregor.

Eles interpretam Terry (Farrell) e Ian (McGregor), irmãos que estão
desesperados por dinheiro. Quando um tio rico lhes promete uma riqueza
incalculável, ficam empolgados - até saberem que receberão o dinheiro apenas se matarem um empresário que planeja testemunhar contra o tio deles. Terry, o irmão mais novo, não quer fazê-lo, enquanto Ian está mais disposto a fechar o acordo. Os irmãos decidem aceitar mas, como nem é preciso dizer, surgem complicações.

Quando recebeu a oferta de trabalhar com Woody Allen, lembra Farrell, ele não pensou duas vezes. "Woody é um daqueles diretores que, se você olhar para o corpo de sua obra, você reza para que algum dia receba um telefonema para trabalhar com ele", diz o ator. "Se você tem a oportunidade de fazer parte de uma de suas histórias, você tem muita sorte."

Geralmente Allen não permite que seus atores leiam o roteiro completo, os limitando às cenas em que aparecem. Mas não foi assim desta vez. "Eu li a coisa toda", disse Farrell, "assim como Ewan. Nós nos sentimos orgulhosos, porque ele fez isso com apenas poucos atores".

Farrell já interpretou mais que sua cota de atiradores em filmes como O NOVATO (2003), S.W.A.T. (2003) e MIAMI VICE (2006), de forma que interpretar um jovem que está relutante em matar, apesar disso significar a realização de todos os seus sonhos, foi uma novidade interessante.

"Este é um homem que tem um pouco de problema com apostas", adianta Farrell. "Ele se mete em alguns problemas sérios, mas tem bom coração. Ama sua namorada e quer comprar uma casa para eles. Então, lhe é oferecida esta oportunidade de sair de suas dívidas, mas somente se cometer um assassinato."

"É um grande pecado para ele", avalia o intérprete. "A realidade do que acontece o lança nesta fase de culpa e depois iluminação. Ele aprende uma dura lição depois de cometer um ato horrendo, e é interessante ver a queda desse homem."

"Ele está lidando com a pressão de seu irmão, que deseja fazer aquilo",
acrescenta o ator. "Este é um homem que não confia em si mesmo e sempre olha para seu irmão, pais ou namorada em busca de apoio. O apoio de seu irmão lhe permite fazer algo terrível. Mas então há aquele momento de 'O que eu fiz? Posso voltar atrás? Minha vida mudará para sempre?'"

Trabalhar com Allen foi tudo o que ele esperava, diz Farrell. "Eu adorei como ele dirige de forma econômica. Woody escala seus filmes de acordo e então fica fora do caminho do ator. Ele também não é intrusivo como pessoa. Ele apenas fica de lado e então fica empolgado por não ter imposto sua vontade aos atores. Ele fica empolgado em ver o que o ator tem a oferecer."

Farrell passou seis semanas filmando em Londres com Allen, McGregor e o que chama de "equipe pequena e unida". "Foi um período adorável. Um dos mais tranqüilos da minha vida."

Quase todas suas cenas foram compartilhadas com McGregor, com quem sentiu afinidade. "Nós passamos uma semana juntos, antes do início das filmagens, apenas conversando sobre sonhos partidos e ambições. Conversamos sobre como Ewan interpretaria o irmão mais ambicioso e com idéias grandiosas. O meu sujeito era uma pessoa de hábitos simples. Ele quer uma vida simples com sua garota."

Pode parecer improvável, dado ter passado grande parte dos últimos anos no centro das atenções em Hollywood, mas Farrell insiste que também é uma pessoa de hábitos simples.

"Eu curti ser famoso. Ri um bocado quando todas as câmeras se voltaram
para mim. Mas a fama nunca foi minha intenção quando decidi me tornar ator. Eu não acho que teria paciência para estar nesse negócio mesmo que por um mês se estive perseguindo algo tão esquivo como a fama."

"Os holofotes e toda a atenção me confundiram desde o início. Ao mesmo
tempo, eu considerei esclarecedor ver como é possível uma pessoa passar de ninguém a alguém que é perseguido pela imprensa em um período tão curto."

Ultimamente, ele acrescenta, o brilho dos holofotes diminuiu um pouco. "Os paparazzi têm me deixado mais em paz porque, francamente, eu não saio muito. Se eu saio, eles são intrusivos como sempre. Mas eu não cortejo a atenção. Eu a ignoro."

"Há prós e contras em tudo", suspira, "e eu tenho uma boa vida. Se quisesse evitar a imprensa, eu poderia abandonar esta profissão. Eu poderia parar de fazer o que faço. Mas eu adoro atuar. Isso não significa que fique contente com as invasões à minha vida."

Desde que o natural de Dublin, filho de um jogador profissional de futebol, apareceu no papel principal em TIGERLAND (2000), um drama sobre a Guerra do Vietnã dirigido por Joel Schumacher, ele esteve em alguns sucessos mas também em alguns fracassos, como ALEXANDRE (2004) e MIAMI VICE.

O ator diz não se incomodar. "Mesmo quando a bilheteria deixa a desejar, você fez um filme e tira dele algo que é benéfico para você como pessoa e como ator. Veja este novo filme do Woody Allen: eu interpreto um personagem que não tem nenhuma aspiração heróica. Ele é apenas um sujeito comum, tentando viver sua vida, como tantas pessoas todo dia. Há lições nestas metas para mim, porque isto é tudo o que a maioria de nós deseja diariamente."

Com lançamento previsto para fevereiro, IN BRUGES de Martin McDonagh é um drama/comédia no qual Farrell e Gleeson são dois matadores de Londres presos na cidade belga de Bruges, após um trabalho particularmente perigoso. "Eles estão se escondendo e a jornada deles os conduz por esta cidade."

Desde que tomou a difícil decisão de reconhecer publicamente os problemas do filho, Farrell recebeu uma enxurrada de cartas o agradecendo por chamar a atenção para este mal devastador. Diferente da perseguição dos paparazzi, o ator aprecia esta forma de atenção pública.

"As pessoas são compreensivas", ele diz baixinho. "Muitas pessoas me contataram depois de lerem sobre meu filho e me deram bastante consolo durante um momento difícil. Mas agora meu filho está se saindo muito bem. Ele está fazendo coisas. Eu estou realmente orgulhoso dele."

>>>Leia a crítica de CASSANDRA´S DREAM
>>>Leia a crítica de IN BRUGES


Por Ian Spelling - Hollywood Watch

16.1.08

Notas de Natureza Selvagem

Publicado em 1998, o livro de Jon Krakauer "Na Natureza Selvagem" atraiu leitores de diferentes estilos interessados em saber mais sobre a vida e morte de Christopher McCandless, jovem que abdicou de sua riqueza e identidade (adotando o nome “Alexander Supertramp”) a fim de tentar encontrar o verdadeiro significado de liberdade.

Quando Sean Penn viu o livro, teve uma reação imediata e forte. "Li a obra do início ao fim duas vezes antes de ir dormir. Então, no dia seguinte, acordei e fui logo ver se conseguia obter os direitos. Considerei a história profundamente cinematográfica em relação aos personagens e às paisagens", conta o ator e diretor. Mas, ainda profundamente sentidos e tentando recuperar-se do falecimento do filho, os McCandless – que foram abordados não só por Penn, mas por uma série de diretores – não tomaram nenhuma decisão. "A família não estava pronta para permitir que o filme fosse feito, mas Sean, muito empolgado, manteve-se em contato com eles", lembra o produtor Bill Pohlad (O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN). Dez anos depois da primeira tentativa de Penn em obter os direitos, finalmente o telefone tocou. "Eles me ligaram do nada e disseram que estavam prontos. Eu honestamente não sei por que mudaram de idéia, mas mudaram", diz Penn. O autor Jon Krakauer acredita saber a razão dessa escolha: "Há algo em Sean que é muito direto, você acredita nele porque sabe que ele conta as coisas como elas são", diz o escritor.

Alguns anos antes da decisão dos McCandless, Penn já tinha o roteiro “escrito” em sua mente, mas foi apenas depois do aval da família que ele se dedicou concretamente à adaptação. "Quando sentei para redigir o primeiro capítulo, dez anos tinham se passado desde que eu lera o livro. Mas não precisei relê-lo. Simplesmente escrevi o que estava na minha cabeça", ele diz. "Depois, li o livro novamente, prestando mais atenção nos detalhes, e precisei colher algumas informações para ir em frente. No capítulo seguinte, caí na estrada, seguindo os passos de Chris", diz Penn, que teve difíceis e íntimas conversas com a família McCandless, especialmente com a irmã do rapaz, Carine. O diretor também encontrou-se com muita gente que conheceu Chris durante o período da viagem. "Todos tinham algo útil a dizer", comenta.

Mais tarde, Penn chegou até mesmo a contratar Wayne Westerberg – de quem Chris tornou-se amigo na Dakota do Sul e que na tela é interpretado por Vince Vaughn para trabalhar como consultor e motorista de caminhão durante a produção de NA NATUREZA SELVAGEM. A fim de acomodar todas as informações que reuniu durante a pesquisa e que desejava passar para a tela, Penn dividiu a estrutura do roteiro em uma série de capítulos, mantendo-se fiel à jornada de dois anos de Chris McCandless. E a idéia de levar autenticidade ao filme marcou o estilo da produção, que mistura visuais épicos e emocionantes com um realismo mais cru, quase como um documentário.

Quando chegou a hora de escolher o elenco, Sean Penn buscou para o papel principal um ator com um idealismo tão franco quanto o de Chris McCandless, e também alguém que lembrasse fisicamente o carismático jovem visto nas fotografias deixadas para trás. Ele encontrou todas essas qualidades no jovem ator Emile Hirsch, com quem passou a se encontrar por um período de quatro meses, de certa forma o testando e confirmando a intensidade de sua dedicação. O diretor explica: "Eu sabia que Hirsch podia interpretar o papel, mas a questão era: ele conseguiria fazer isso todos os dias por oito meses sob duras condições? E estaria disposto a amadurecer, indo de garoto para homem, durante a produção e na tela? Finalmente, dissemos: ‘É, vamos em frente’, e ele saiu-se muito bem."


Para o ator, as cenas no Alasca foram uma prova-de-fogo e o levaram a seus limites – de maneira que Chris McCandless provavelmente apreciaria. No primeiro dia de Hirsch no Alasca, Sean Penn o fez subir ao topo de um morro bastante íngreme e tomado por neve em condições similares àquelas encaradas por McCandless. Quando outros integrantes da equipe tentaram ajudar Hirsch, Penn os impediu. "Acho que ele queria me testar para ver se eu realmente estava pronto a encarar a natureza", reflete o rapaz.

Tornando tudo ainda mais desafiador, o ator precisou começar as filmagens 18 quilos abaixo de seu peso, ostentando menos de 52 quilos nas últimas cenas do filme. (As seqüências do Alasca foram filmadas no início do projeto, já que ganhar peso é um processo bem mais rápido que perder.) Ao longo da evolução das filmagens, Hirsch encontraria mais forças, indo do Alasca para o forte calor do Lago Mead e então ao Grand Canyon, onde aprenderia a descer de caiaque as lendárias corredeiras do Rio Colorado. Mas houve alguns momentos de pânico: "Lembro de enfrentar a primeira onda no caiaque. Engoli mais água que uma pia, mas consegui sobreviver e fui para a cama me sentindo um herói", conta o ator. A jornada “de renúncias” de Chris McCandless teve início quando o rapaz tinha 22 anos, como resultado da revolta contra os pais, cujas vidas eram, em sua opinião, falsas e vazias.

Quem interpreta Walt McCandless, pai de Chris e engenheiro da NASA, é o vencedor do Oscar de Melhor Ator por O BEIJO DA MULHER ARANHA, William Hurt. O ator observa que não tentou refletir diretamente o verdadeiro Walt McCandless. "Acho que essa noção de representar a existência de outra pessoa é muita presunção", explica. "Não dá para dizer que conhecemos plenamente outro ser humano pois, mesmo no livro de Jon Krakauer, Walt ainda passa pela ‘peneira’ da interpretação do autor. Então, o que eu espero é simplesmente que, ao assistir ao filme, Walt sinta sinceridade na minha interpretação."

O papel de Billie McCandless, mãe de Chris, foi reservado à atriz vencedora do Oscar® por POLLOCK, Marcia Gay Harden. ela observa que encarou o papel com uma certeza: "Foi muito importante tanto para mim quanto para Hurt levar humanidade aos personagens dos pais." A única pessoa da família que pareceu logo entender o que Chris estava indo fazer quando saiu de casa sem deixar rastros foi a irmã dele, Carine, em cuja voz indagativa Sean Penn escolheu contar a história. Para fazer a narração e viver Carine, Penn escolheu Jena Malone (O MUNDO DE JACK E ROSE), que se impressionou com a força da irmã de Chris. "Ela encarou bem essa situação", diz Malone. "Mas, como atriz, também precisei lembrar que essa é a Carine no ‘final da jornada’, e tive que arrumar uma forma de refazer seus passos até aqueles tempos de insegurança e talvez perda da fé." Malone trabalhou na preparação da narração com a própria Carine McCandless e também com o aclamado poeta americano Sharon Olds, que ajudou a aperfeiçoar as palavras escolhidas.

Para retratar aqueles que McCandless conheceu durante a viagem, Penn montou um elenco formado tanto por excepcionais atores quanto por reais personagens da história, incluindo Leonard Knight, artista que criou a Salvation Mountain em um acampamento de traileres no deserto da Califórnia chamado Slab City e que no filme fala da força do amor. "Não dá para achar essas pessoas no sindicato dos atores", comenta Penn. Outro que ele encontrou ao longo do caminho foi Brian Dierker, um especialista em corredeiras e em Grand Canyon que trabalhou como coordenador das cenas de água do filme e atuou pela primeira vez como ator, interpretando o personagem do viajante Rainey. "Sean me falava sempre da idéia de interpretar Rainey porque ele achava que daria certo, mas eu sabia que isso significaria entrar em um território completamente novo. Então, tentei demovê-lo da idéia, mas ele insistiu e eu pensei: ‘quantas oportunidades temos na vida de trabalhar com alguém desse calibre?’".


A companheira de Rainey no filme, Jan, é vivida pela atriz Catherine Keener. Para o papel, Keener precisou entrar em um duro território emocional, indo ao âmago de uma mulher que sofreu uma das piores perdas da vida – o desaparecimento de um filho. “Não consigo imaginar o terror que deve ser não saber onde seu filho está e o que está acontecendo com ele. Acho que por isso Jan foi tão receptiva a Chris”, reflete a atriz. Ao longo de sua épica jornada, Chris também conhece Tracy, uma jovem que cresceu no ímpar ambiente de Slab City. Kristen Stewart (O QUARTO DO PÂNICO) retrata a personagem e seu estilo de vida espontâneo e inocentemente romântico, e precisou fazer algo no filme que ela nunca fizera antes: apresentar-se como cantora diante de um público de reais habitantes de Slab City. "Nunca toquei para ninguém", ela confessa. "Mas o público era muito caloroso – todos aplaudiam, empolgados por estar ali. Isso tornou tudo muito divertido", diz.

A última pessoa de quem Chris se torna amigo antes de ir para o Alasca é Ron Franz. Quem interpreta Franz no filme é a lenda dos palcos e telas Hal Holbrook. Sobre o efeito que Chris McCandless exerceu em Ron Franz, Holbrook opina: "É um relacionamento muito interessante que se desenvolve entre um senhor e um jovem, mas, de certa forma, um relacionamento duro. Ron é uma pessoa solitária, assim como Chris. Ele perdeu a família e se estabeleceu à margem da sociedade, mas está preso em um beco sem saída. Ron deixou de aproveitar a vida, e Chris o estimula a viver fora do círculo que criou para si."

Desde o início, estava claro que NA NATUREZA SELVAGEM precisaria ser filmado com a câmera em movimento e “na estrada”. Penn admite: "Fizemos de tudo nessa produção que não se deve fazer: filmamos na neve, filmamos numa temperatura de 48 graus, filmamos no Rio Colorado." Sean Penn queria captar paisagens que tocassem a alma das pessoas e para isso saiu em busca de um diretor de fotografia com quem pudesse realmente se entender. Ele havia visto o trabalho de Eric Gautier no filme de Walter Salles DIÁRIOS DE MOTOCICLETA e se surpreendeu com a forma como as paisagens tornaram-se parte da história. "Conversei com Walter Salles, que eu conheço e respeito bastante, e ele se empolgou falando do quanto Eric era bom, um verdadeiro artista. Ouvir isso de Walter foi realmente importante." Gautier precisou filmar não apenas icônicas paisagens americanas, mas também pulsante ação externa, especialmente em cenas de água corrente. Quando questionado sobre como as imagens tornaram-se tão naturais, Penn é sucinto: “Entrando na água. Não tratamos apenas de ir às locações reais, mas de colocar a câmera onde quer que fosse, custasse o que custasse."

Outro importante passo foi escolher a contemplativa trilha sonora de NA NATUREZA SELVAGEM, que traz canções originais de Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, junto a composições com Michael Brook e Kaki King. Vedder explica que, enquanto criava as músicas, seu irmão mais novo, também chamado Chris, viajou para a África do Sul para meditar e, por um tempo, perdeu contato com a família. "Ficamos sem saber dele por uns dois meses e, de repente, eu me senti como Carine. Havia coisas acontecendo na vida real semelhantes às da história", diz Vedder. Talvez por isso ele tenha captado tão bem o espírito do filme e de seus personagens. O cantor avalia que tudo fluiu de forma perfeita: "Havia algo no ar, não dava para negar que alguma coisa estava acontecendo. Foi tão fácil compor e a música tomou forma de maneira curiosa, com batidas casando com a porta de um carro batendo ou um som de órgão mesclando-se com a maneira como os ombros de Emile mexiam para cima e para baixo”, revela.

Para o diretor Sean Penn, não foi apenas a trilha que se encaixou com perfeição, mas também tudo que ele havia criado em sua mente depois de ler o livro de Jon Krakauer: "O filme ficou praticamente como eu o tinha imaginado dez anos antes."

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