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9.9.07

Aos Leões

Ang Lee ganha o Leão de Ouro pela segunda vez em dois anos; Thriller sexualmente explícito ambientado em Xangai nos anos 1940, LUST CAUTION surpreende em Veneza


Veneza: Zhang Yimou, Catherine Breillat, Jane Campion, Emanuele Crialese, Alejandro González Iñárritu, Ferzan Ozpetek e Paul Verhoeven decidiram conceder o 64º Leão de Ouro à Ang Lee, pela segunda vez em dois anos.

Com isso, O taiwanês, radicado nos Estados Unidos, entra no seleto grupo de diretores que já venceram Veneza duas vezes: o francês Louis Malle, com ATLANTIC CITY (1980) e ADEUS MENINOS (1987), o também francês André Cayatte, com JUSTICE EST FAITE (1950) e LE PASSAGE DU RHIN (1960), e o chinês Zhang Yimou, com A HISTÓRIA DE QIU JU (1992) e NENHUM A MENOS (1999).

Lee já havia ganho o festival, dois anos atrás, com O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, a famosa história dos caubóis gays. Agora, sua temática é hetero. LUST CAUTION é baseado no romance de Eileen Chang, que muitos definem como a Jane Austen chinesa. Em 156 minutos ambienta-se na Xangai dos anos 40, ocupada pelos japoneses.

Yee (Tony Leung) é um poderoso colaboracionista do governo títere. Wong Chia Chi (a estreante Tang Wei) é uma jovem atriz, que entra para o movimento de resistência à ocupação japonesa. O problema da resistência é chegar até Yee, alvo em aparência inalcançável, cercado da mais rígida segurança. A garota será o único meio de atingi-lo e o caminho será o do sexo, naturalmente. Causou algum escândalo por causa das cenas quentes, porém filmadas de maneira estetizada, o que as atenua.

Vale ressaltar que embora o Leão de Ouro credenciou BROKEBACK MOUNTAIN ao Oscar, isso, talvez seja mais díficil em LUST CAUTION, justamente pelas cenas hardcores. O único filme impróprio para menores a receber uma estatueta de melhor filme foi PERDIDOS NA NOITE, em 1969.

Alguns filmes apontados como favoritos receberam prêmios de consolação, como o francês LA GRAINE ET LE MULET, sobre o cotidiano dos franco tunisianos na região de Marselha, e I´M NOT THERE, uma nada convencional biopic de Bob Dylan, feita por Todd Haines, que dividiram o Prêmio Especial do Júri. Cate Blanchet, que interpreta Dylan como um dândi, levou a Copa Volpi de melhor atriz. Já o ator foi Brad Pitt, por sua caracterização como Jesse James, um dos mitos do Oeste.

Prêmios Oficiais - VENEZIA 64"

Leão de Ouro de Melhor Filme
LUST, CAUTION

de Ang LEE (Taiwan)

Leão de Prata de Melhor Diretor
Brian DE PALMA

de Ang LEE (Taiwan)
por REDACTED (EUA)

Prêmio Especial do Juri
LA GRAINE ET LE MULET

de Abdellatif KECHICHE (França)
e
I’M NOT THERE
de Todd HAYNES (EUA)

Copa Volpi de Melhor Ator
Brad PITT

por THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES BY THE COWARD ROBERT FORD de Andrew DOMINIK (EUA)

Copa Volpi de Melhor Atriz
Cate BLANCHETT

por I’M NOT THERE de Todd HAYNES (EUA)

Prêmio Marcello Mastroianni de Melhor Ator/Atriz Juvenil
Hafsia HERZI

por LA GRAINE ET LE MULET de Abdellatif KECHICHE (França)

Melhor Fotografia
Rodrigo PRIETO

por LUST, CAUTION de Ang LEE (Taiwan)

Melhor Roteiro
Paul LAVERTY

por IT’S A FREE WORLD de Ken LOACH (Inglaterra)

Leão Especial
NIKITA MIKHALKOV

Conjunto da Obra

Prêmio Horizontes
AUTUMN BALL

de Veiko ÕUNPUU (Estonia)

Melhor Documentário
USELESS

de Jia ZHANGKE (China)

Críticas:
12 - ANDARILHO - BLADE RUNNER: THE FINAL CUT - CARGO 200 - CASSANDRA´S DREAM - CLEOPÁTRA - CRISTOVÃO COLOMBO: O ENIGMA - DESEJO E REPARAÇÃO - EN LA CIUDAD DE SYLVIA - GLORY TO THE FILMAKER - HELP ME EROS - IL DOLCE E L´AMARO - I´M NOT THERE - IN THE VALLEY OF ELAH - INTOLERÂNCIA (1916) - IT´S A FREE WORLD - LA GRAINE ET LE MULET - LES AMOURS D´ASTRÉE ET CELADON - LUST CAUTION - MICHAEL CLAYTON - NESSUNA QUALITÀ AGLI EROI - NIGHTWATCHING - O ESTRANHO MUNDO DE JACK 3D - O EXPRESSO DARJEELING - REDACTED - SLEUTH - THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES - THE HUNTING PARTY - THE SUN ALSO RISES - USELESS

Trailers:
CASSANDRA´S DREAM - DESEJO E REPARAÇÃO - GLORY TO THE FILMAKER- I´M NOT THERE - IN THE VALLEY OF ELAY - LUST, CAUTION - MICHAEL CLAYTON - O EXPRESSO DARJEELING - REDACTED - SLEUTH - THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES - USELESS

Tags:
Alexander Kluge - Ang Lee - Eric Rohmer - Fanny Ardant - George Clooney - Juame Balagueró - Jude Law - Julie Bressane - Ken Loach - Kenneth Branagh - Michael Caine - Paco Plaza - Paolo Franchi - Ridley Scott - Takeshi Kitano - Tilda Swinton - Tony Gilroy

8.9.07

Festival de Veneza prepara-se para anunciar grande vencedor





VENEZA: Hollywood esquenta as máquinas para o Oscar de fevereiro, mas pode ser que o júri do Festival de Veneza olhe para outras direções aos escolher neste sábado, entre os 23 filmes concorrentes, o vencedor do Leão de Ouro.

Seis filmes norte-americanos participam da competição -- duas produções sobre a guerra no Iraque, uma sobre a corrupção em Wall Street, uma refilmagem da história de Jesse James, uma biografia de Bob Dylan na qual a atriz Cate Blanchett, entre outros, interpreta o cantor, além de uma comédia.

A inclusão desses filmes na competição garantiu um grande afluxo de estrelas ao tapete vermelho, algo crucial para o sucesso de qualquer festival.

Brad Pitt compareceu a Veneza ao lado de Angelina Jolie e dos filhos do casal. E George Clooney, Woody Allen, Johnny Depp, Charlize Theron e Keira Knightley garantiram presença, acenando para os fãs em polvorosa.

Caso o júri do festival decida-se por uma premiação de sabor mais político, o chocante REDACTED, de Brian De Palma, pode ser um forte concorrente. A produção reconstrói a história de uma iraquiana de 14 anos de idade estuprada e assassinada por soldados norte-americanos.

Mas o filme dividiu opiniões, ao passo que o mais delicado IN THE VALLEY OF ELAH, de Paul Haggis, conquistou uma aprovação generalizada. Haggis conta a história de um soldado norte-americano assassinado após regressar do Iraque. Parte da força do filme deve-se à grande atuação de Tommy Lee Jones, no papel principal.

"Acho que o filme de Brian De Palma é mais original e inovador, também por causa da forma como utiliza as mídias mais recentes. Já o de Haggis é mais tradicional", disse a crítica de cinema Paola Jacobbi, em Veneza para a edição italiana da revista "Vanity Fair".

"O único problema com o filme de De Palma é que ele prega para os convertidos, é ideológico demais."

Jay Weissberg, da revista de cinema "Variety", disse que o diretor de REDACTED "desfere um golpe de marreta contra nossas cabeças. A gente se sente manipulado."

Se o júri de Veneza decidir-se por privilegiar a arte cinematográfica mais pura em vez das produções de teor político, o favorito é LA GRAINE E LE MULET, dirigido por Abdellatif Kechiche, que nasceu na Tunísia.

O filme conta a história de uma família árabe no sul da França reunida em torno do antigo sonho do pai de possuir seu próprio restaurante. Trata-se de um mergulho no que o diretor descreve como "o direito dos imigrantes de serem diferentes".

Perspectivas
64º Mostra D'arte Cinematografica di Venezia

Leão de Ouro de Melhor Filme

1.REDACTED, de Brian DE PALMA (EUA) - Nota: 92
1.LA GRAINE ET LE MULET, de Abdellatif KECHICHE (FRANÇA) - Nota: 92
1.12, de Nikita MIKHALKOV (RÚSSIA) - Nota: 92
4.LUST, CAUTION, de Ang LEE (TAIWAN) - Nota: 90
5.IN THE VALLEY OF ELAH, de Paul HAGGIS (EUA) - Nota: 89
6.DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe WRIGHT (INGLATERRA) - Nota: 88
7.IT’S A FREE WORLD, de Ken LOACH (INGLATERRA) - Nota: 88
8.THE SUN ALSO RISES, de Wen JIANG (CHINA/HONG KONG) - Nota: 87
9.O EXPRESSO DARJEELING, de Wes ANDERSON (EUA) - Nota: 86
10.LES AMOURS D’ASTRÉE ET CÉLADON, de Eric ROHMER (FRANÇA) - Nota:85
11.MICHAEL CLAYTON, de Tony GILROY (EUA) - Nota:85
12.THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES BY THE COWARD ROBERT FORD, de Andrew DOMINIK (EUA) - Nota:82
13.SLEUTH, de Kenneth BRANAGH (INGLATERRA) - Nota:81
14.I’M NOT THERE, de Todd HAYNES (EUA) - Nota:80
15.EN LA CIUDAD DE SYLVIA, de José Luis GUERÍN (ESPANHA) - Nota:78
16.NIGHTWATCHING, de Peter GREENAWAY (INGLATERRA) - Nota:77
17.IL DOLCE E L’AMARO, de Andréa PORPORATI (ITÁLIA) - Nota:75
18.BANGBANG WO AISHEN, de Kang SHENG LEE (TAIWAN) - Nota:70
19.NESSUMA QUALITÀ AGLI EROI, de Paolo FRANCHI (ITÁLIA/SUÍÇA) - Nota:65
HEYA FAWDA, de Youssef CHAHINE (EGITO) - Nota:--
L’ORA DI PUNTA, de Vincenzo MARRA (ITÁLIA) - Nota:--
SUKIYAKI WESTERN DJANGO, de Takashi MIIKE (JAPÃO) - Nota:--

Leão de Prata de Melhor Direção
1.REDACTED, de Brian DE PALMA (EUA)
2.12, de Nikita MIKHALKOV (RÚSSIA)
3.LA GRAINE ET LE MULET, de Abdellatif KECHICHE (FRANÇA)
4.EN LA CIUDAD DE SYLVIA, de José Luis GUERÍN (ESPANHA)
5.THE SUN ALSO RISES, de Wen JIANG (CHINA/HONG KONG)

Copa Volpi de Melhor Ator
1.IN THE VALLEY OF ELAH, de Paul HAGGIS (EUA) - Tommy LEE JONES
2.LUST, CAUTION, de Ang LEE (TAIWAN) - Tony LEUNG
3.12, de Nikita MIKHALKOV (RÚSSIA) - Elenco

Copa Volpi de Melhor Atriz
1.LUST, CAUTION, de Ang LEE (TAIWAN) - Tang WEI
2.IT’S A FREE WORLD, de Ken LOACH (INGLATERRA) - Kierston WAREING
3.DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe WRIGHT (INGLATERRA) - Keira KNIGHTLEY

Por Mike Collett-White e Silvia Aloisi (Reuters)

Cuscuz à Veneziana

VENEZA: Quase no fim da festa, o último dia da competição nos honrou com mais um deleite. O diretor russo Nikita Mikhalkov, apresentou 12, uma nova recriação do clássico 12 HOMENS E UMA SENTENÇA, de Sidney Lumet. Agora recorrendo a uma belíssima mise-en-scène, intercalando cenas violentas de Guerra, com interpretaçoes de alguns dos melhores atores russos da atualidade, onde se incluí ele próprio. O filme gira a volta do grupo de jurados, que tenta chegar à verdade sobre uma decisão judicial, onde está em causa e como réu, um miúdo tchetcheno, que assassinou o padrasto, um soldado do exército russo.

A fechar a competição, o realizador egípcio Youssef Chahine, apresentou CHAOS, uma cronica social e uma história de amor e ciúme, passada em Choubra, um bairro cosmopolita dos arredores do Cairo, um filme que marca apenas o regresso do veterano realizador em Veneza.

Fechada a competição resta ao júri presidido por Zang Yimou, chegar a uma conclusão quanto aos premiados e principalmente quanto ao Leão de Ouro 2007. O grande favorito do público e da crítica continua ser, curiosamente, o "filme do cuscuz, LA GRAINE ET LE MULET, do franco-tunisino Abdelatiff Kechiche. Mas nestes casos, e já não é a primeira vez aqui e noutros festivais, que o júri surpreende e premia filmes que não lembram a ninguém. A cerimônia de entrega dos prémios é hoje, às 19hs.

Por José Vieira Mendes (Premiere)

6.9.07

Quase no fim da Linha...

VENEZA: Quase no fim da grande maratona cinematográfica veneziana, foi apresentado como filme-surpresa, na última sessão da noite, MAD DETECTIVE, da dupla de diretores de Hong Kong, Johnnie To e Wai Kar Fai. É mais um filme que vem se juntar aos outros na disputa pelo Leão de Ouro. MAD DETECTIVE é um filme policial com muita adrenalina na mesma linha da filmografia de Johnnie To, e que gira à volta de uma pistola desaparecida e de um estranho e violento polícial que consegue ler a mente dos criminosos alterando-lhes a sua personalidade.

Culto, pedagógico, informal, e bem educado com os jornalistas foi Peter Greenaway, na sessão de imprensa que seguiu à projeção de NIGHTWATCHING, um filme homenagem, ao pintor Rembrandt, em que a história associa dois aspectos do artista: a sua complexa vida sentimental e o mistério que gira em volta da concepção de uma das suas mais famosas obras, datada de 1642: Nightwatching.

Por fim L´ORA DE PUNTA, de Vicenzo Marra, preencheu a inevitável cota italiana na edição da Mostra, com um thriller frouxo sobre a corrupção, a obsessão pelo poder e dinheiro e o reconhecimento social, o mesmo tema de MATCH POINT, interpretado por Fanny Ardant e por Michelle Lastela, uma estrela italiana, que vem do teatro e que me fez lembrar Daniel Day-Lewis.

Por José Vieira Mendes (Premiere)

5.9.07

O Estranho Mundo de Burton

VENEZA: Tim Burton vai entrar para a galeria dos imortais na Mostra Cinematográfica de Veneza, já que recebeu o Leão de Ouro de Carreira, no festival, antecipando a exibição de O ESTRANHO MUNDO DE JACK EM 3D, e ainda as primeiras imagens do seu novo filme SWEENEY TODD.

Ontem à noite, com SUKIYARI WESTERN DJANGO, o lendário diretor japonês de terror, Takashi Miike, prestou uma homenagem ao western spaghetti, em particular a Sergio Corbucio e a um dos seus personagens Django, interpretado por Quentin Tarantino. O melhor deste filme repetitivo até à exaustão, é a sequência inicial com Tarantino, que serve como uma espécie de prólogo para o filme e para a (re)invenção de um género: o sukiyaki western, o nome de um prato típico japonês, semelhante ao spaghetti.

O espanhol José Luis Guerín, entre aplausos e assobios, apresentou EN LA CIUDAD DE SYLVIA, um retrato da juventude, sobre um desenhista que procura incessantemente, num regresso à bela cidade de Estrasburgo, uma jovem com quem estudou pediatria e se apaixonou, chamada Sylvia.

Manoel de Oliveira, estreou o seu novo CRISTOVÃO COLOMBO - O ENIGMA, em mais uma pequena e ingênua lição de história que faz lembrar NON OU VAN GLÓRIA DE MANDAR, num filme que pela sua originalidade (e respeito ao mestre, que ainda corre e conduz automóvel, apesar dos seus 98 anos) foi muito apreciado pela crítica italiana, e em que o realizador e a mulher, participam como atores. Mas Oliveira é Oliveira!

LA GRAINE ET LE MULET, de Abdellatif Kechiche, o tal do ‘cous-cous’, é efetivamente o filme surpresa nesta competição, é o mais ‘estrelado’ na Tabela da crítica e do público, do suplemento da Ciak, a revista de cinema, que edita em Veneza, diariamente uma excelente publicação de quarto páginas, com os horários, notícias, e a resenha crítica dos filmes do dia.

Ontem a noite foi dedicada a Bob Dylan, com I´M NOT THERE de Todd Haynes, decerto a mais inconvencional biografia de uma figura pública, jamais feita na história do cinema. I´M NOT THERE é um filme contra a corrente, em que a personalidade do músico desdobra-se numa espécie de heterónimos, interpretados entre outros por Cate Blanchett, Richard Gere, Heath Ledger ou Christian Bale, que servem de pretexto para ele próprio a partir das suas Cronichles e Haynes explorarem um complexo universo pessoal e músical e uma obra completa que está para além da música. I´M NOT THERE é um filme extraordinário, mas de muito difícil assimilação, até pela dispersão de personagens e narrativa e pela quantidade de informação que fornece, que exige ao espectador um razoável conhecimento de Bob Dylan, da sua música e do seu tempo.

Por José Vieira Mendes (Premiere)

4.9.07

Brian vai à guerra

VENEZA: Em setembro do ano passado, quando estava no Festival de Toronto para apresentar DÁLIA NEGRA, Brian De Palma foi procurado por um representante da produtora HDNet Films com uma proposta: desenvolver um filme de US$ 5 milhões (cerca de R$ 9,8 milhões), sobre qualquer tema, desde que realizado em vídeo digital de alta definição.

De Palma respondeu que concordaria, se encontrasse um assunto adequado ao formato. Pouco depois, tomou conhecimento de um incidente da Guerra do Iraque em que soldados americanos de um posto de controle estupraram uma garota de 14 anos, massacraram sua família, atiraram no rosto dela e incendiaram seu corpo. "Como esses garotos podem ter chegado a esse ponto?

Procurando respostas, li blogs de soldados, vi seus vídeos amadores, surfei por seus websites e pelo material postado no YouTube. Estava tudo lá, e tudo em vídeo", disse o diretor.

O resultado desse trabalho foi exibido pela primeira vez na sexta-feira passada, na competição do Festival de Veneza, provocando alto impacto. "Redacted", que também será exibido no Festival de Toronto e tem estréia garantida no Brasil, é a recriação ficcional desse episódio brutal, na forma de um documentário multiforme, reproduzindo os meios de captação e reprodução da imagem digital hoje: diários filmados, documentários amadores, câmeras de vigilância, testemunhos on-line.


De Palma fez um filme profundamente político, não só pelo seu conteúdo, mas também pela proposta de uma reflexão em torno da imagem hoje. REDACTED significa "editado", numa referência à forma como a informação sobre a guerra do Iraque vem sendo veiculada pelos grandes meios de comunicação -"na base da omissão, da mentira e da censura", nas palavras do diretor. Em entrevista, De Palma transbordou sua indignação com a guerra e criticou, ainda, a indústria do cinema americano.

Spoiler: Depois da primeira exibição de "Redacted", a platéia parecia atônita, sem saber como reagir ao filme. O que achou da reação?
Brian de Palma: Antes de Veneza, mostrei o filme para poucos amigos, produtores e distribuidores. Notei essa mesma reação, em todas as exibições que fiz. Não sei bem o porquê, talvez por ser algo novo as pessoas ainda não saibam exatamente como processar o que viram. Quando você faz algo inovador, é natural que perguntem o que é isso. Mas só estou apresentando um material na forma como eu o descobri. Procurei determinadas informações, e a forma do filme evoluiu naturalmente dessa pesquisa. Fiz "Redacted" do modo que me pareceu o mais correto para expor o tipo de material que encontrei.

Spoiler: Como foi o trabalho de pesquisa?
De Palma: Basicamente, usei as ferramentas de busca da internet. Juntei mais de cem páginas de material e descobri tudo o que você vê no filme, não inventei absolutamente nada. O que selecionei e o que ficou na versão final é baseado em material de plena confiança. Está tudo lá. Nem sempre pudemos identificar a origem de certos materiais, que, por isso, não foram usados.

Spoiler: Além da pesquisa virtual, você conversou com soldados?
De Palma: Sim, vários. A pesquisa não se limitou à internet. E o mais impressionante é que as histórias são as mesmas, exatamente as mesmas do Vietnã! Os veteranos se fazem as mesmas perguntas, dizem as mesmas coisas: o que fomos fazer lá? Todo mundo parece me odiar! Que diabos é isso? Meu amigo explodiu atrás de mim! É exatamente a mesma história que contei em "Pecados da Guerra" [filme de 1989].

Spoiler: Você encontrou muitas barreiras legais enquanto desenvolvia esse filme?
De Palma: Sim. Precisei consultar advogados para saber o que poderia ser usado o tempo todo. O material que cai na internet não é de domínio público se você for fazer um filme de ficção. E isso é uma loucura. Nunca entendi direito como funciona essa legislação. Em nosso país, se você faz uma obra de ficção baseada em algo que supostamente aconteceu de verdade, pode facilmente ser processado pelas pessoas que viveram a história -mesmo depois de essa história ter sido publicada, impressa e transmitida pela TV infinitas vezes. Tudo, no filme, é ficcionalizado, mas não menos verdadeiro.

Spoiler: Por que a maior parte dos americanos não chegou a esse material, se ele está disponível na web?
De Palma: Isso é curioso. Não sei porque, mas toda a forma como a informação circula mudou, e muita gente ainda não sabe como chegar até ela. Do Vietnã para cá, acho que o aspecto do mundo que sofreu a maior transformação foi a mídia, que hoje não informa, mas esconde a informação. É preciso fazer um filme sobre isso: o que aconteceu com a mídia? Que tipo de transformação se efetuou? A primeira Guerra do Golfo, por exemplo, foi impressionante. Parecia um show de fogos de artifício. Ninguém via onde as bombas caíam, eram apenas luzes no céu. Mas, Deus do céu, aquelas bombas estavam caindo sobre pessoas!

Spoiler: Ter feito esse filme em vídeo foi um ato político?
De Palma: Não, o vídeo não é político por ser vídeo, é apenas um meio que está aí, disponível. O fato é que surgiu toda uma nova indústria criativa a partir do vídeo e da tecnologia digital e nós não fazemos idéia de onde ela vai parar. Toda vez que me conecto na internet, descubro alguma coisa nova. Há correspondentes de TV em várias partes do mundo que transmitem programas ao vivo, de suas próprias casas. Hoje, cada um pode ter seu próprio programa de TV. Isso é uma revolução.

Spoiler: Como você espera que seu filme seja recebido nos EUA?
De Palma: Fiz esse filme o mais silenciosamente possível, não queria que a notícia vazasse e algo pudesse atrapalhar nosso processo de trabalho. Tenho certeza de que "Redacted" vai desagradar muita gente. Sua primeira exibição está sendo aqui no Festival de Veneza. Acredito que, nos EUA, a reação vai ser bastante polarizada. A direita vai chamá-lo de propaganda comunista. Será uma reação forte.

Spoiler: Qual será o desenvolvimento da guerra a partir de agora? Haverá uma retirada em um curto espaço de tempo?
De Palma: Não. Essa guerra ainda vai durar muito tempo. Provocamos um caos e agora fica difícil sair dele. Alguém acreditou, algum dia, que nossa presença no Iraque tornaria algo melhor? Obviamente não sabemos nada! O que estamos fazendo lá? Mas a consciência do desastre está cada vez maior. Talvez com o novo Congresso, as coisas comecem a mudar. O desenrolar dessa guerra foi tão ruim e há tanta mentira que não há como evitar que as coisas venham à tona.

Spoiler: É possível voltar à ficção depois de um filme como esse?
De Palma: Não sei... Quero ainda fazer muitos filmes, mas filmes que sejam do meu interesse, do coração. Estou cansado de lidar com todo o "mambo jambo" do cinema. Todos os executivos de Hollywood, hoje, vieram da televisão. Há muita coisa boa na TV, mas esses executivos simplesmente não entendem nada de cinema. Eles querem produzir coisas que passem no horário nobre.

Spoiler: Como vê as perspectivas de sua carreira, daqui para adiante?
De Palma: Qual é o objetivo de uma carreira cinematográfica hoje? Fazer um sucesso atrás do outro? Por quê? Depois que você juntou um certo dinheiro, qual o sentido em ganhar mais dinheiro? Essa é a questão. Quando fiz "Missão: Impossível", meu filme de maior sucesso, Tom Cruise veio me perguntar se queria fazer "MI:2". Mas por quê? O que pode haver de interessante criativamente aí? Vejam Sam Raimi, um diretor talentoso, o que ele tem feito? Vai passar o resto da vida fazendo "Homem-Aranha"! Vão fazer mais três filmes! Sinceramente, esse é um preço alto demais para se ganhar um bilhão de dólares. Na minha idade, vou aproveitar o que me resta.

Por Pedro Butcher - Folha de São Paulo

Os Dramas da Família

VENEZA: Logo no ínicio da sessão de imprensa de O EXPRESSO DARJEELING, o diretor Wes Anderson, pediu aos jornalistas para não abordarem questões sobre Owen Wilson, um dos seus cumplíces neste projeto indiano, além de Jason Schwartzman, Roman Copolla, Adrien Brody e novamente Bill Murray, já que o fogoso ator e roteirista, foi abandonado por Kate Hudson e tentou suícidio.

Sem algo em comum com a realidade ou com o acidente de Wilson, apesar de estarem em jogo, sentimentos e emoções, O EXPRESSO DARJEELING é mais uma excelente comédia do absurdo, na linha de OS EXCÊNTRICOS TENEBAUMS, também polvilhada de intrincadas relações familiares, um tema comum a todos os filmes de Anderson. Assim, O EXPRESSO DARJEELING conta a história de três irmãos que viajam de trem pela Índia, à procura da mãe e de uma reconciliação entre eles. Por isso, a palheta de cores dos filmes indianos de Bollywood estão em todas as sequências e dialogos inesperados, repletos de nonsense, a começar por um obrigatório curta-metragem, intitulado HOTEL CHEVALIER, rodado em Paris, que funciona como uma espécie de prólogo ou parte 1, do filme principal e onde curiosamente entra Natalie Portman, sensual e sexy como nunca vimos nem mesmo em CLOSER.

LA GRAINE ET LE MULET, um melodrama do franco-tunisino Abdellatif Kechiche é indiscutivelmente uma bela surpresa. No contexto dos filmes em competição é mais uma abordagem familiar, sobre uma extensa familia residente em Marselha, presa num cotidiano de tensões e sentimentos familiares cruzados e alguns deles até, extra-conjugais. A figura central é um pai de meia-idade, ausente da família e desempregado que toma a iniciativa arriscada de abrir um restaurante tradicional, onde a especialidade é o famoso cuscuz com peixe. Um prato que poderá ajudá-lo a sobreviver e a congregar os seus afetos familiares.

Claude Chabrol e Woody Allen, ambos fora de concurso, trouxeram dois belos filmes ao Lido. Tanto LA FILLE COUPÉ EN DEUX quanto CASSANDRA´S DREAM buscam um registro cirúrgico da natureza humana em situação criminal. Chabrol, mais uma vez, procura o tom da ironia. Allen retoma o universo da culpa dostoiewskiana, já presente em CRIMES E PECADOS. Ambos não poderiam ser mais diferentes: Allen anda soturno, cabisbaixo. Chabrol esbanja vitalidade, é freqüentador assíduo dos restaurantes e não perde ocasião para uma boa piada.

O crítico italiano Paolo Mereghetti disse que, usando tanto o vídeo, o cinema estava virando escravo desse suporte. De Palma, que usa de forma abundante esse recurso em REDACTED, respondeu: "É o contrário. A imagem cinematográfica escraviza as de vídeo por sua maior riqueza."

Antes da apresentação oficial de CLEÓPATRA, Júlio Bressane, ao lado de Alessandra Negrini, queixava-se de que a organização do festival não havia providenciado credenciais para o resto da sua equipe, que assim não poderia entrar no Palazzo del Cinema para acompanhar a projeção. Acha os europeus rígidos demais. Tem razão.

São muitos os problemas de organização da mostra. Há sessões que ficam lotadas antes da hora e os credenciados da imprensa não conseguem entrar. Não há banheiros para todos e alimentar-se é uma corrida de obstáculos. Veneza se expandiu e a infra-estrutura não acompanhou. Já foi lançado o projeto de novo complexo para o festival, para 2011. Mas ninguém ainda sabe de onde virá o dinheiro.

Por José Vieira Mendes (Premiere), Pedro Butcher (Folha), Luiz Zannin Oricchio (Estado) e Agência EFE

3.9.07

Crime e Castigo

VENEZA: As projeções e eventos sucedem-se em Veneza num ritmo infernal...Muito aguardado, CASSANDRA´S DREAM parece se afastar da ligeireza de SCOOP, regressando à atmosfera de film noir de MATCH POINT, talvez o seu melhor filme dos últimos anos. Para isso, utiliza quase os mesmos ingredientes: O charme londrino, a sua inegável ironia e desta vez, um crime que vai ter um surpreendente, mas inevitável castigo.

Utilizando uma história da mitologia hómerica, Woody Allen desenvolve um verdadeiro ensaio, sobre a culpa e o remorso que tem como referência novamente o universo de Dostoevsky. Além disso, tem à sua disposição um lote de estrelas que, apesar da sua fama de forreta, querem trabalhar com ele, como por exemplo Ewan Mcgregor e Colin Farrel, que fazem um dupla verdadeiramente notável. Allen justifica ainda a sua fama de descobridor de talentos ao lançar como femme fatal a jovem Hayley Atwell (uma atriz lindíssima que tinha feito apenas pequenos papeis na televisão), talvez uma das suas novas musas. Destaque ainda e coisa rara nos filmes de Woody Allen para a colaboração na trilha musical do famoso compositor Philipp Glass, que acrescenta um tom e um ambiente musical algo inquietante nesta irónica história de crime e castigo.

Com um longo título THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES BY THE COWARD ROBERT FORD, do neozelandês Andrew Dominik, chega mais uma versão do lendário ladrão do oeste Americano aqui apresentado como um espécie de Robin dos Bosques, com Brad Pitt e Casey Affleck. Trata-se de um drama histórico, uma parábola bíblica, ao estilo de Terence Malick, mas sem a mesma genialidade, um western povoado de personagens de uma tragédia grega. Sem ser um filme extraordinário, é no entanto uma boa relexão, sobre a maldade, a inveja, a construção e desconstrução de um mito e o poder da informação capaz por vezes, de uma impensável manipulação. No bando de Jesse James estão dois coadjuvantes de grande estilo: Sam Rockwell e Sam Sheppard, num filme produzido por Brad Pitt e por Ridley Scott.

E por falar em Ridley Scott, ele esteve em Veneza para apresentar mais uma versão de BLADE RUNNER e, prometeu, será a última vez em que mexe no filme. "Esse sim é BLADE RUNNER como eu o havia imaginado", disse, na entrevista coletiva. "Essa foi minha primeira experiência em Hollywood e as coisas não saíram como eu imaginei. Esqueci do filme até o surgimento da MTV, quando reparei que ele servia de inspiração para muitos novos diretores. Foi quando resolvi voltar a ele." Scott também comentou a atual onda de filmes sobre a Guerra do Iraque. Disse considerar que seu FALCÃO NEGOR EM PERIGO (2001), sobre desastrada ação militar americana na Somália, "inaugurou" a tendência.

CLEÓPATRA, de Júlio Bressane, teve boa recepção em sua projeção para a imprensa. A versão de Bressane para a vida da rainha egípcia, interpretada por Alessandra Negrini, participa da seção Veneza Maestri, que apresenta também trabalhos de Woody Allen, Takeshi Kitano e Claude Chabrol, entre outros. Ainda serão exibidos ao longo da semana ANDARILHO, de Cao Guimarães, ANABAZYS, de Joel Pizzini e Paloma Rocha, e a versão restaurada de A IDADE DA TERRA, de Glauber Rocha.

O ministro da Cultura da Itália, Franceso Rutelli, reuniu a imprensa para apresentar o projeto da nova sede do festival, que custará US$ 91 milhões e deverá estar pronta em 2011. Até hoje, o evento se realiza no Palazzo del Cinema, construído em 1932 pelo governo de Mussollini. Na forma de um navio de cabeça para baixo, a nova sede terá uma sala de exibição para 2.400 espectadores.

Por José Viera Mendes (Premiere) e Pedro Butcher (Folha de São Paulo)

1.9.07

As Guerras do Mundo

VENEZA: Com IN THE VALLEY OF ELAH, a metáfora bíblica que representa a luta entre David e o Golias, Paul Haggis, o homem que escreve os argumentos para Clint Eastwood e que estreou como diretor no aclamado CRASH, apresentou o melhor filme jamais feito sobre Guerra e a presença norte-americana no Iraque, embora tudo se passe na América.

O filme complementa de alguma forma, REDACTED, a meta-ficção que Brian De Palma apresentou sobre o mesmo tema, mas que não foi recebido com tanto entusiasmo. O desaparecimento de um soldado no Iraque, a investigação conduzida pelo pai (um notável Tommy Lee Jones que vai se transfigurando) e por uma angustiante detetive de polícia, interpretada por Charlize Theron, é o pretexto para um olhar sobre o patriotismo e a forma como a guerra afeta os jovens soldados, os homens, os seus comportamentos e ideais. IN THE VALLEY OF ELAH, está para a Guerra do Iraque, como O FRANCO ATIRADOR de Michael Cimino, esteve para o Vietnam. Até agora, é o melhor filme da competição, sendo um dos favoritos de público e crítica, pelos aplausos, que se seguiu nas projeções.

Hoje efetivamente foi um grande dia para o cinema, pela qualidade das obras, como IT´S A FREE WORLD, de Ken Loach, um grande filme sobre o vale tudo, para ter lucro, que é infelizmente um dos sinais dos tempos e uma consequência da ascensão do capitalismo financeiro. IT´S A FREE WORLD é um filme sobre o desemprego e o assédio sexual no trabalho, do qual uma mãe solteira é vítima, mas acaba focando também as empresas de recursos humanos, que contratam e exploram os imigrantes do Leste e do Médio Oriente, que procuram melhores oportunidades na grande metrópole de Londres.

Destaque, também, para a cena de amor entre Harrisson Ford e Sean Young, ao som do tema de Vangelis, em BLADE RUNNER: THE FINAL CUT, de Ridley Scott, numa outra versão, diferente e melhor, e com final surpresa, num filme que há 25 anos marcou uma geração de cinéfilos.

Por José Vieira Mendes (Premiere)

31.8.07

George, o Magnífico

VENEZA: A assinatura do spot da Martini, citando a publicidade, em que George Clooney contracena com a modelo chilena Leonor Varala, a toureira que castra o touro e que agora começa a passar nas televisões, serve perfeitamente, para caracterizar a interpretação do ator, em MICHAEL CLAYTON, de Tony Gilroy, que como diretor estreia em Veneza.

Clooney num registro, curiosamente muito semelhante a SYRIANA, inclusive na temática do filme, mas agora sobre a corrupção, a especulação financeira e a fusão de empresas, arranca novamente uma notável interpretação, no advogado justiceiro Michael Clayton, um personagem com uma vida privada confusa e instável, mas que não abdica da descoberta da verdade.

MICHAEL CLAYTON é uma filme complexo, à imagem de SYRIANA, mas é também um verdadeiro filme-denúncia, a lembrar um sub-gênero em voga nos anos 70 de Alan J. Pakula ou mesmo Sidney Pollack, (que faz um pequeno papel) e em que o ator, em uma forma altruísta, abdicou do seu cachê, pela importância do papel e desta obra que vai chegar certamente aos Oscar, pela sua diferença.

Por falar em filmes denúncia, Brian De Palma, partiu do YouTube e do blog de um soldado americano em missão no Iraque, para construir, REDACTED, uma ficção-documental, sobre um caso verídico da violação de uma jovem de 14 anos, por cinco soldados americanos em 2006 nos arredores de Mamhudya.

O cineasta italiano Paolo Franchi apresentou NESSUNA QUALITÀ AGLI EROI, com a francesa Irène Jacob, um filme sobre tortura mental. Dois homens, um de meia-idade e outro mais jovem, se identificam no ódio a seus pais. Esse motivo leva o primeiro a deixar a mulher e a declarar-se como autor de um assassinato cometido pelo segundo.

Com LES AMOURS D´ASTRÉE ET DE CÉLADON, o veterano Eric Rohmer busca a linha da fábula pastoril, na qual os dois amantes se desentendem, se separam e acabam se reencontrando depois de muitas situações equívocas. Ambientada no ano 5 d.C., segundo uma narrativa do século 17. È incrível como Rohmer, em idade avançada, consegue manter o frescor de sua narrativa, e valoriza as ambiguidades das situações amorosas.

E Scarlett Johasson, que infelizmente por razões contratuais não vai poder estar no Lido, é a protagonista de THE NANNY DIARIES, de Shari Springer Berman e Robert Pulcini umamoça, que decide ser temporariamente babá numa familia rica de Nova Iorque, em prejuizo de uma carreira à altura dos seus estudos universitários, isto numa doce homenagem à mais famosa ama da história do cinema: Mary Poppins.

Um dia depois de levar um tombo em seu apartamento no Hotel Des Bains, Mario Monicelli, 92 anos, já era visto dando entrevistas no Lido e dizendo gracejos às jornalistas. E falava com a verve de sempre. Sobre DESEJO E REPARAÇÃO, melodrama adaptado da obra de Ian McEwan, e que abriu o festival, o diretor de O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE disse simplesmente que "ficava a um passo do ridículo". Cruel, mas não longe da verdade.

Por falta de verdadeiras polêmicas, os jornalistas pegaram no pé de Kenneth Branagh, diretor de SLEUTH, remake do filme de 1972 de Joseph Mankiewicz. É que, no enredo, o personagem de Michael Caine faz alusões pouco agradáveis sobre as origens italianas do seu antagonista, vivido por Jude Law. Numa delas, diz que os italianos são "uma estranha gente, e a cultura não é o seu forte". Em outra, afirma que "a vingança é natural nos italianos". Kenneth se defende dizendo que esses diálogos estavam no roteiro, não foi ele quem os escreveu e que, no máximo, exprimem o preconceito de um personagem e não do autor. Segundo ele, o roteirista, o prêmio Nobel Harold Pinter, "adora a Itália, e escreveu diálogos com senso de ironia". Mesmo assim, os italianos ficaram mordidos.

Já está sendo divulgada aqui em Veneza a programação da 3.ª Rassegna do Instituto Brasil-Itália, que ocorre em Milão de 10 a 16 de dezembro. O curador Giovanni Ottone confirmou os seguintes longas: CIDADE BAIXA, DESERTO FELIZ, BAIXIO DAS BESTAS, CARTOLA, BOLEIROS 2, OS 12 TRABALHOS, CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS, À MARGEM DO CONCRETO, BATISMO DE SANGUE, O CÉU DE SUELY, EU ME LEMBRO, HÉRCULES 56, ACHADOS E PERDIDOS, ÁRIDO MOVIE E DEPOIS DAQUELE BAILE. Segundo Ottone, a seleção procurou inserir filmes representativos de diversos gêneros e tendências do cinema brasileiro contemporâneo: dramas sociais, comédias, documentários sobre as condições de vida nas cidades e nas favelas.

Por José Vieira Mendes (Premiere), Pedro Butcher (Folha), Luiz Zannin Oricchio (Estado) e Agência EFE

30.8.07

Diretor alemão defende cinema online no Festival de Veneza

VENEZA: Trinta e nove anos após ter conquistado o Leão de Ouro no Festival de Veneza, o cineasta alemão Alexander Kluge retorna à mostra para a qual está programada uma homenagem a sua segunda vida artística, iniciada na metade dos anos 80, ou seja, quando decidiu abandonar o cinema e começar a ser autor para a televisão.

Com 75 anos, assim como o festival italiano, o pai do cinema novo alemão vê hoje o futuro da sétima arte na internet e na síntese.

"Um jovem que hoje quer fazer cinema deve pensar na Internet. Na rede qualquer um pode enviar os próprios filmes e ser espectador. Mas necessita ser rápido: filmes de um minuto, no máximo cinco, síntese e qualidade são o futuro. Os filmes devem ser breves como uma citação de Tácito", afirmou Kluge.

Na mostra será possível ver alguns dos seus programas mais significativos: "Mein Jahrhundert, Mein Tier!", "Das Phänomen Der Opor", "Im Sturm Der Zeit/Facts & Fakes", "Die Poetische Kraft Der Theorie" e "Der Zauber Der Verdunkelten Seele".

"'Mein Jahrhundert, Mein Tier!' [Meu Século, Meu Monstro] é um programa de 19 seqüências autônomas, retiradas de filmes entre 1966 e 2007. Afronta os problemas da contemporaneidade do movimento estudantil de 1968 e da globalização", explicou Kluge.

"Das Phänomen Der Opor" [O Fenômeno da Ópera] é uma espécie de guia para a história da ópera lírica, "a irmã mais antiga do cinema pois ambos são concentrados de emoções, criaturas de sentimentos. Existem 80 mil óperas líricas. Destas, apenas 70 são representadas regularmente, mas na realidade todas são ligadas entre si de maneira disfarçada. O filme é concebido como uma única grande partitura", disse o diretor.

"Im Sturm Der Zeit/Facts & Fakes", [Na Tempestade do Tempo/Verdades e Mentiras] que será apresentado nesta sexta-feira na sala Volpi, evoca os fantasmas da Segunda Guerra Mundial por meio da contaminação entre fatos e fantasias.

"Die Poetische Kraft Der Theorie" [A Forma Poética da Teoria} aprofunda um caminho feito de frases filosóficas de Aristóteles e Heidegger para descobrir que poesia e filosofia não são tão distantes.

Por fim, "Der Zauber Der Verdunkelten Seele" [A Magia da Alma Obscurecida] aborda uma reflexão sobre a luz, matéria mãe do cinema.

Da Agência ANSA

Tempestade Tropical

VENEZA: Apesar da trovoada tropical que abateu aqui no Lido de Veneza, que mais parecia um dilúvio, a competição aqueceu com dois filmes bastante tórridos. Dois anos depois de O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, Ang Lee regressou com LUST, CAUTION, um filme falado em mandarim, protagonizado por duas estrelas asiáticas (Tony Lung e Wang Lee-hom), e com produção norte-americana. LUST, CAUTION é um filme intenso, um thriller erótico de espionagem, passado entre Xangai e Hong-Kong na II Guerra Mundial, e ao mesmo tempo uma vibrante história de amor em que os protagonistas oscilam entre a razão e os sentimentos. O filme têm cenas eróticas explícitas e muitos já lhe chamam um espécie de ULTIMO TANGO EM PARIS, da atualidade.

Não menos insólito e contraditório é SLEUTH, de Kenneth Branagh, o remake do ultimo filme de Mankievitz, rescrito por Harold Pinter, e interpretado por Michael Caine e Jude Law, com Caine agora numa inversão de papéis em relação ao original. Este novo filme é diferente para melhor, na recriação dos ambientes de alta tecnologia da casa onde se desenvolve o jogo de alto risco entre os dois protagonistas e onde Jude Law, um ator muitas vezes menosprezado, transcende-se na interpretação de Milo, o amante da dona da casa que nunca vemos. O final é absolutamente imprevisível, depois de ao longo do filme assistirmos às mais diversas reviravoltas.

Uma das seções paralelas mais badaladas é a dos faroestes à moda italiana, que tem em Sergio Leone seu nome mais reluzente. A projeção de POR UM PUNHADO DE DÓLARES, com Clint Eastwood, fez sucesso. E realmente foi um acontecimento rever esse filme em cópia zero km, brilhando de nova. Detalhe: o restauro custou 270 mil euros, mais do que o orçamento original do filme lançado em 1964. Na época, Clint recebeu um cachê de módicos US$ 15 mil.

E ontem no Pachuka, um dos mais famosos locais de animação aqui do Lido, houve uma festa de arromba, intitulada Viva Quentin!, o padrinho da retrospectiva, que esteve lá e até comeu muito spaghetti como a maioria dos convidados, ao som de remix de Enio Morriconne e com muita Pulp Dogs music a recordar também os filmes de Tarantino.

Fora de concurso, Veneza expõs REC, dos espanhóis Juame Balagueró e Paco Plaza, dando nova originalidade às infinitas variantes dos filmes de terror. Neste o filme só existe enquanto uma câmera de vídeo, de reportagem de uma televisão espanhola, está gravando, com o comando rec apertado. O que começa como uma reportagem sensacionalista para um programa de madrugada, acompanhando plantões de um quartel de bombeiros, termina com extremos chocantes de violência e vampirismo em um pacato edifício residencial cercado e isolado em quarentena.

Um dos orgulhos do Festival de Veneza é ter escolhido um júri composto apenas por cineastas para a comemoração dos seus 75 anos. Pois para o decano da crítica italiana, o influente Tullio Kezich, foi péssima idéia: "Cineastas são os piores juízes dos filmes alheios", dispara. Segundo Kezich, poucos deles vão regularmente ao cinema, não gostam de discutir os filmes e são intolerantes com visões de mundo diferentes das suas.

E mais uma preocupação para Veneza: já assediada pela concorrência do Festival de Toronto e pela Festa do Cinema de Roma, vê-se agora ameaçada por Torino, que tem em sua direção ninguém menos que o cineasta Nanni Moretti e começa em 23 de novembro.

Por Leon Cakoff (Mostra SP), Luiz Zanin Orocchio (Estado de São Paulo) e José Vieira Mendes (Premiere)

O que vão fazer com os Leões?

VENEZA: Este é uma das primeiras curiosidades dessa Veneza 64, já que as figuras dos Leões que estão habitualmente perfilados, no tapete vermelho da entrada do Palácio do Cinema, têm andado de um lado para o outro sem muito bem saberem o que fazer. Isto é, se estivessem nos seus lugares originais, tapariam uma bela escultura de um globo colocado no interior da falsa parede do Palácio, e que comemora os 75 anos do mais antigo Festival de Cinema do Mundo.

Quanto aos filmes, a abertura como já tinha sido anunciado, coube ao filme de origem britânica, DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe Wright. É uma história em três tempos (anos 30, II Guerra Mundial, e atualidade) em que uma autora de renome Briony Tallis, escreve o último romance da sua vida, contado ao longo do filme, tentando expiar a sua culpa na infância, sendo responsável pela tragédia sentimental da irmã mais velha Cecile. Depois de ORGULHO E PRECONCEITO, Joe Wright, adaptou, com a ajuda de Christopher Hampton (o argumentista de LIGAÇÕES PERIGOSAS) mais um grande romance, e de díficil adaptação para o cinema.

DESEJO E REPARAÇÃO é um filme comovente, uma história de amor, algo formalista à boa maneira britânica, mesmo com flashbacks narrativos, e que conta com belíssimas interpretações de Keira Knightley e James MacAvoy, além de uma fabulosa aparição final de Vanessa Redgrave, que dá voz á escritora aos setenta anos. Um filme que certamente estará na corrida aos Oscar.

Takeshi Kitano, apresentou-se aqui no Lido, com GLORY TO THE FILMAKER, fora de competição, mas não menos importante, até porque se trata de um filme dirigido aos amantes do cinema. Kitano retorna às suas preocupações existenciais em relação à sua carreira de diretor, questionando-se novamente sobre os clichés da sua própria obra no contexto dos gêneros e do futuro do cinema. Num filme de grande sentido de oportunidade, numa altura em que se manifestam grandes revoluções cinematográficas, Kitano combina uma forma irônica, o melhor da sua arte como ator para fabricar um conjunto de quadros cómicos que representam os mais variados gêneros e sub-gêneros do cinema, que vão da ficção científica, aos filmes de yakusas.

E continuam repercutindo por aqui as declarações da atriz francesa Fanny Ardant, que elogiou as Brigadas Vermelhas, organização de esquerda responsável nos anos 70 por atentados e pelo assassinato de Aldo Moro, então presidente da Democracia Cristã italiana. Assustada com a repercussão de suas palavras, recuou e pediu desculpas. Mas o mal já estava feito. No entanto, o presidente do festival Marco Müller, garantiu que Fanny seria bem recebida em Veneza e estaria até pensando em fazê-la a musa da edição de 2008. "Se ela quiser vir, é claro", disse ele, acrescentando: "Mas sobre as Brigadas, Fanny se equivocou." Fanny Ardant está no elenco de L´ORA DI PUNTA, filme de Vicenzo Marra que concorre ao Leão de Ouro.

Nem mesmo o próprio Müller pode garantir que estará por aqui no próximo ano, ao menos como diretor do festival. Nesta edição está no seu último ano de mandato. E a renovação por mais um período parece problemática. Um nome tem surgido nos bastidores para assumir a Bienal de Veneza, à qual a Mostra está subordinada: o da cineasta Liana Cavani. Mas não existem ainda especulações sobre um substituto de Müller, o que talvez o leve a um mandato-tampão de um ano. O que é certo, ele já disse, é que, após o festival, irá passar uma semana de repouso no Brasil, entre Rio e São Paulo.

Cinema na Itália é coisa séria. Se não fosse assim, o sisudo Corriere della Sera não abriria sua edição de ontem com uma matéria integralmente estampada na capa com o título "O país do Cinema". O texto, de Ernesto Galli della Loggia, analisa a importância que teve o cinema na Itália do século 20, em especial durante os anos em que uma ainda deficiente alfabetização do povo, tornava essa arte o seu principal contato com a própria realidade. A atual indefinição do cinema no país, segundo o articulista, refletiria não apenas uma situação passageira do cinema, mas esta seria o reflexo da prolongada crise de identidade vivida pela nação italiana

Por Francisco Silva (Premiere), Luiz Zannin Orocchio (Estado de São Paulo) e redação do Corriere della Sera

29.8.07

O amor como ilusão

VENEZA: Em BROKEBACK MOUNTAIN, o amor é assombrado, proibido, um raro momento que sempre foge ao alcance de seus personagens. No mais recente trabalho de Ang Lee, LUST CAUTION, cuja premiere ocorre essa semana em Veneza, o amor é uma armadilha, ou mais cruel de tudo, uma ilusão.

“BROKEBACK MOUNTAIN é sobre um paraíso perdido, um Éden”, afirma Ang Lee direto de Veneza, “mas esse é o fundo do poço, um lugar repugnante. É mais como o inferno”.

Baseado num conto chinês de 26 páginas da famosa escritora Eileen Chang, a obra segue um grupo de estudantes patriotas que planeja assassinar uma importante figura do governo chinês, numa Xangai ocupada pelos japoneses, durante a segunda guerra mundial. A estreante Tang Wei é uma jovem que seduz um oficial do governo para abrir caminho ao plano de assassinato, num caso desesperadamente físico, imbuído de paixão e suspeita, como o próprio titulo sugere.

Ang Lee disse que quando leu pela primeira vez, o livro de Chang, que começou a escrever nos anos 50 e o revisou obsessivamente até publicá-lo em 1979, o conto o marcou profundamente da mesma forma que o texto de Annie Proulx, base para BROKEBACK MOUNTAIN. “No começo pensei que não havia jeito de filmá-lo, mesmo assim, não conseguia parar de pensar nele. Então chegou num ponto que senti que era a minha estória. Tornou-se uma missão”.

Como Lee, que nasceu em Taiwan, mas vive nos EUA desde os anos 80, Chang viveu dois mundos: Começou sua carreira antes da Guerra, com romances que evocam a fusão do Oriente com o Ocidente, o velho e o novo, algo que predominava em Xangai antes do comunismo. Após 1949, fugiu para Hong Kong e, então, para a América, onde continuou a escrever, mas sempre reclusa. Morreu em Los Angeles em 95 e teve seu trabalho adaptado para as telas em duas ocasiões com Stanley Kwan (RED ROSE, WHITE ROSE) e Ann Hui (LOVE IN A FALEN CITY).

Para Ang Lee, um astuto observador do poder sexual de desejo e repressão (não só em BROKEBACK MOUNTAIN, mas também em TEMPESTADE DE GELO, O BANQUETE DE CASAMENTO e RAZÃO E SENSIBILIDADE), o fascínio de LUST CAUTION encontra-se no irredutível mistério de sua estória de amor que culmina, aparentemente, num volúvel ato irracional. “É complexo e depressivo”, afirmou.

Para expandir o rápido argumento num roteiro decente (O filme em mandarim foi editado em duas horas e meia), Ang Lee trabalhou com o roteirista Wang Hui-Ling de COMER, BEBER, VIVER e O TIGRE E O DRAGÃO. Com baixo orçamento e modesta produção, a película foi filmada em 4 meses em Hong Kong, Malásia e Xangai.

Para Ang Lee, cujos pais foram exilados chineses, LUST CAUTION ressoa num nível político. “É sobre ocupar e ser ocupado”, disse. "O perigo aqui é se apaixonar pelo inimigo. É bonito de ver, mas impossível dominar”.

26.8.07

Festival de Veneza reflete "desejo de reparação"


Adaptação de livro de McEwan e cópia nova de INTOLERÂNCIA marcam abertura

Oficialmente, o 64º Festival de Veneza será inaugurado hoje com a co-produção anglo-americana DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe Wright, e encerrado dia 8 de setembro com o chinês BLOOD BROTHERS, de Alexi Tan, produzido por John Woo.

Extra-oficialmente, porém, dois outros eventos balizam o festival: as projeções das cópias restauradas de INTOLERÂNCIA (1916), de David Wark Griffith (na abertura), e A IDADE DA TERRA (1980), de Glauber Rocha (no encerramento). Trata-se de uma bela carta de despedida de Marco Müller, que termina, neste ano, seu mandato de quatro anos como diretor artístico de Veneza.

DESEJO E REPARAÇÃO é a esperada adaptação de "Atonement", de Ian McEwan, lançada no Brasil pela Companhia das Letras como "Reparação". A grande dúvida é se Joe Wright, diretor da competente -porém "genérica"- versão de ORGULHO E PRECONCEITO, de Jane Austen, de 2005, foi capaz de fazer um filme à altura do livro.

Seu lugar de destaque faz sentido no desenho que Müller imprimiu à seleção (57 longas, 22 em competição). "Reparação" é a história de uma mulher que passa a vida tentando reparar um erro de juventude.

Em entrevista à Associated Press, Müller afirmou que o programa reflete um "desejo de reparação, de escapar de um certo modo de vida, um certo momento da história. Algo evidente em alguns filmes selecionados é que eles querem se afastar da política da guerra".

Dois longas da competição refletiriam esse sentimento: REDACTED, de Brian De Palma, reunião de histórias de soldados americanos no Iraque encenadas por atores desconhecidos, e IN THE VALLEY OF ELAH, de Paul Haggis (seu primeiro filme como diretor depois do Oscar por CRASH), história de um jovem soldado que desaparece depois de voltar do Iraque.

Para festejar os 75 anos da primeira edição do festival (interrompido na Segunda Guerra e maio de 68), Müller caprichou nas retrospectivas. Uma série de mostras dialogará com filmes da competição, com destaque para o faroeste. Quentin Tarantino apadrinha mostra dedicada ao "western spaghetti", com 32 filmes realizados na Itália entre 1964 e 1976.

Filmes sobre Iraque lançam sombra sobre Festival de Veneza

Dois filmes sobre a guerra do Iraque e seu impacto sobre os americanos nos Estados Unidos estão entre os 22 trabalhos da competição oficial do Festival de Veneza deste ano, conferindo peso político a um evento repleto de produções de Hollywood.

IN THE VALLEY OF ELAH, de Paul Haggis, com Tommy Lee Jones, Charlize Theron e Susan Sarandon, é o filme ansiosamente aguardado baseado no assassinato verídico de um jovem soldado americano que retornou do Iraque. O filme vai competir com REDACTED, de Brian de Palma, a história de uma unidade do Exército americano que persegue uma família iraquiana. O filme também analisa a cobertura do conflito pela mídia.

Outros filmes a tratar de questões candentes em Veneza serão MICHAEL CLAYTON, com George Clooney no papel de um agente que faz trabalhos sujos para uma grande empresa, o italiano IL DOLCE E L´AMARO, sobre a Máfia, e o egípcio HEYA FAWDA, que destaca a brutalidade policial.

O festival é uma vitrine importante do cinema de arte mundial e um dos primeiros eventos precursores do Oscar, que acontece em fevereiro. Em 2005, O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, de Ang Lee, recebeu o Leão de Ouro de melhor filme em Veneza e acabou obtendo oito indicações ao Oscar.

Seis dos filmes da competição principal são produções americanas e quatro são britânicas, conferindo um destaque incomum ao cinema falado em inglês, este ano.

Lee Marshall, crítico de cinema da revista Screen International, disse que "este festival será ótimo para o lado mais independente do cinema anglo-saxão, mas há ausências importantes do resto do mundo".

Para ele, a América do Sul, o sul da África e partes da Ásia estão subrepresentados na competição principal de Veneza e também nas seções especiais.

As outras produções americanas principais que estarão na competição principal são O EXPRESSO DARJEELING, com Owen Wilson e Bill Murray, THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES BY THE COWARD ROBERT FORD, com Brad Pitt, e I´M NOT THERE, em que Cate Blanchett faz o papel do cantor e compositor Bob Dylan.

Os quatro filmes britânicos incluem DESEJO E REPARAÇÃO, que vai abrir o festival e é baseado no aclamado romance Reparação, de Ian McEwan, sendo estrelado por Keira Knightley, e SLEUTH, de Kenneth Branagh, um remake do thriller de 1972 baseado num roteiro do Prêmio Nobel Harold Pinter. Ang Lee estará de volta com um thriller de espionagem da 2.ª Guerra Mundial falado em chinês, LUST, CAUTION.

Alguns dos grandes nomes fora da competição em Veneza este ano incluem Woody Allen, Colin Farrell, Richard Gere e Scarlett Johansson. O diretor americano Tim Burton será homenageado com um prêmio pelo conjunto de sua obra.

Presença do Brasil no Festival de Veneza é pequena

Será pequena a presença brasileira em Veneza, mas que poderá causar certo agito. CLEÓPATRA (interpretada por Alessandra Negrini) marca a participação de Julio Bressane, diretor de muito prestígio em Veneza, aliás, em toda a Europa, desde que ganhou uma retrospectiva completa de sua obra na França e foi apontado, pela Cahiers du Cinéma, "como um diretor que não podemos desconhecer".

Nos festivais europeus, as obras de Bressane são sempre bem recebidas, por um público que pode não ser o mais numeroso do mundo, mas é dos mais qualificados. Foi assim com DIAS DE NIETZSCHE EM TURIM, em Veneza, e FILME DE AMOR, em Cannes. Bressane é considerado um autor e não está na seção dos mestres de Veneza, ao lado de Woody Allen e Manoel de Oliveira, por acaso ou concessão sentimental com o Terceiro Mundo.

Já em relação a Glauber Rocha, a questão é outra. Morto em 1981, Glauber é hoje considerado na Europa um dos grandes inventores da linguagem cinematográfica em toda a história. Críticos sérios reverenciam seu nome como nós aqui reverenciamos Antonioni, Bergman, Buñuel, Welles. Quer dizer, como alguém cuja obra deve ser não apenas conservada e revista, como estudada, pois tem o significado de contribuição permanente à arte cinematográfica universal.

Acontece que Glauber concorreu ao Leão de Ouro com A IDADE DA TERRA no Festival de Veneza de 1980 e foi derrotado. Inconformado com a decisão, promoveu uma passeata no Lido, chamando o júri de colonizado e o público, que também não curtiu o filme, de alienado. No ano seguinte, Glauber morreu em Portugal. Alguma coisa ficou irresolvida em relação a Veneza. Será interessante ver como será a releitura dessa obra 27 anos depois. O documentário ANABAZYS, apresentado na mostra Horizontes, complementa essa tentativa de reatar esses fios soltos da história do cinema. É dirigido por Joel Pizzini e por Paloma Rocha, filha do cineasta.

Por Pedro Butcher (Folha de São Paulo), Luiz Zanin Oricchio (Estadão) & Mike Collett-White (Reuters)

28.7.07

Mondo Veneza

EUA e Inglaterra dominam disputa pelo Leão de Ouro; No 64º Festival de Veneza, 11 dos 22 filmes em competição pertencem aos dois países; Brasil fica em seções paralelas


Faltou qualidade aos filmes latino-americanos para competir pelo Leão de Ouro no 64º Festival de Veneza (22/8 a 9/9), de acordo com o diretor artístico da mostra, Marco Müller: "O que vimos do cinema latino-americano não tinha as qualidades que pedimos a um filme para Veneza: inovador, surpreendente, original", disse Müller, ontem, em Roma, ao anunciar a programação.

Foram submetidos à seleção de Veneza 223 filmes latino-americanos. Quatro longas brasileiros foram escalados para seções paralelas. O diretor Julio Bressane está na mostra hors-concours "Mestres de Veneza", com "Cleópatra".

Os demais mestres incluídos nessa seção são o norte-americano Woody Allen ("Cassandra's Dream"), o japonês Takeshi Kitano ("Glory to the Filmmaker"), o francês Claude Chabrol ("La Fille Coupée en Deux"), o sul-coreano Kwopn Taek Im ("Beyond the Years"), e o português Manoel de Oliveira ("Cristóvão Colombo- O Enigma").

"A Idade da Terra" (1960), de Glauber Rocha (1939-81), cuja premiação em Veneza provocou uma ruidosa polêmica no festival, será exibido em cópia restaurada como "Evento Especial", ao lado de "Intolerância" (1917), de D. W. Griffith.

"Eu, que sou filho de brasileira, dei alguns telefonemas e consegui dois documentários [brasileiros] extraordinários, além de "Cleópatra", do Bressane, incluído entre os grandes mestres", disse Müller. Os documentários nacionais convidados são "Andarilho", de Cao Guimarães, e "Anabazys", de Joel Pizzini e Paloma Rocha (filha de Glauber). Ambos estão na seção "Horizontes Doc".

A disputa pelo Leão de Ouro, o principal prêmio do festival, que é o mais antigo do mundo, será dominada por produções dos Estados Unidos e da Inglaterra. Dos 22 filmes na competição (veja lista à dir.), 11 têm produção ou co-produção assinada por esses dois países.

"Um dos aspectos mais extraordinários dos filmes norte-americanos que selecionamos é que eles são trabalhos muito inovadores, tendo grandes estrelas [no elenco]", afirmou.

São aguardadas em Veneza, entre outras, estrelas como Brad Pitt, no elenco do drama "The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford"; George Clooney ("Michael Clayton"); Cate Blanchett e Richard Gere ("I'm Not There"); Tommy Lee Jones, Charlize Theron e Susan Sarandon ("In the Valley of Elah").

O filme de abertura do festival é a adaptação do livro "Reparação", de Ian McEwan, assinada pelo inglês Joe Wright. Entre as mais recentes participações de cineastas brasileiros na competição pelo Leão de Ouro -que o país jamais venceu- estão as de Walter Salles, com "Abril Despedaçado" (2001), e Fernando Meirelles, com a produção internacional "O Jardineiro Fiel", em 2005.

Apenas cineastas integram o júri deste ano. O gesto de destaque à direção cinematográfica é comemorativo aos 75 anos de fundação do Festival de Veneza -o número menor de edições (64) deve-se à interrupção nos períodos de guerra. Os jurados são: Zhang Yimou, Alejandro González Iñárritu, Jane Campion, Paul Verhoeven, Catherine Breillat, Emanuele Crialese e Ferzan Ozpetek.

SELEÇÃO OFICIAL
64º Mostra D'arte Cinematografica di Venezia

12, de Nikita MIKHALKOV (RÚSSIA)
LES AMOURS D’ASTRÉE ET CÉLADON, de Eric ROHMER (FRANÇA)
THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES BY THE COWARD ROBERT FORD, de Andrew DOMINIK (EUA)
BANGBANG WO AISHEN, de Kang SHENG LEE (TAIWAN)
THE DARJEELING LIMITED, de Wes ANDERSON (EUA)
DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe WRIGHT (INGLATERRA)
IL DOLCE E L’AMARO, de Andréa PORPORATI (ITÁLIA)
EN LA CIUDAD DE SYLVIA, de José Luis GUERÍN (ESPANHA)
LA GRAINE ET LE MULET, de Abdellatif KECHICHE (FRANÇA)
HEYA FAWDA, de Youssef CHAHINE (EGITO)
I’M NOT THERE, de Todd HAYNES (EUA)
IN THE VALLEY OF ELAH, de Paul HAGGIS (EUA)
IT’S A FREE WORLD, de Ken LOACH (INGLATERRA)
LUST, CAUTION, de Ang LEE (TAIWAN)
MICHAEL CLAYTON, de Tony GILROY (EUA)
NESSUMA QUALITÀ AGLI EROI, de Paolo FRANCHI (ITÁLIA/SUÍÇA)
NIGHTWATCHING, de Peter GREENAWAY (INGLATERRA)
L’ORA DI PUNTA, de Vincenzo MARRA (ITÁLIA)
REDACTED, de Brian DE PALMA (EUA)
SLEUTH, de Kenneth BRANAGH (INGLATERRA)
SUKIYAKI WESTERN DJANGO, de Takashi MIIKE (JAPÃO)
TAIYANG ZHAOCHANG SHENQI, de Wen JIANG (CHINA/HONG KONG)

SESSÕES PARALELAS
CASSANDRA’S DREAM, de Woody ALLEN (INGLATERRA)
CHUN-NYUN-HACK, de KWON-TAEK Im (CORÉIA DO SUL)
CLEÓPATRA, de Júlio BRESSANE (BRASIL)
CRISTÓVÃO COLOMBO - O ENIGMA, de Manoel de OLIVEIRA (PORTUGAL)
FAR NORTH, de Asif KAPADIA (INGLATERRA/FRANÇA)
LA FILLE COUPÉE EN DEUX, de Claude CHABROL (FRANÇA)
THE HUNTING PARTY, de Richard SHEPARD (EUA)
KANTOKU BANZAI!, de Takeshi KITANO (JAPÃO)
THE NANNY DIARIES, de Shari Springer BERMAN & Robert PULCINI (EUA)
NOCTURNA, de Adrià GARCÍA & Víctor MALDONADO (ESPANHA/FRANÇA)
REC, de Paco PLAZA & Jaume BALAGUERÓ (ESPANHA)
TIANTANG KOU, de Alexi TAN (TAIWAN/HONG KONG)


Com agências internacionais

24.7.07

Roma, Veneza, Toronto e São Paulo

Na poeira do cinema pipoca, Hollywood começa a se preparar para a temporada de ouro dos Festivais e Premiações.


Hollywood promete fortes emoções para esse segundo semestre, época de grandes Festivais e principal plataforma de lançamento dos filmes que devem se destacar no OSCAR e no Globo de Ouro.

O Festival de Veneza abre a sua 64ª edição, entre 29 de agosto e 8 de setembro, com "Atonement", adaptação do livro "Reparação", de Ian McEwan, dirigida pelo britânico Joe Wright ("Orgulho e Preconceito"). A mostra também homenageará os westerns spaghettis e o diretor Alexander Kluge, além de Tim Burton que recebe um Leão de Ouro especial pela carreira.

No passado, Tim Burton já havia escolhido o Festival de Veneza para realizar o lançamento mundial de suas obras de animação, "O Estranho Mundo de Jack" (1994) e "A Noiva Cadáver" (2005). Esse ano promete Helena Bonham-Carter como a protagonista de uma diabólica fábrica de empadas na versão para o cinema de "Sweeney Todd" ao lado de Johnny Depp, no papel de um barbeiro endemoniado.

O thriller chinês "Blood Brothers" (Irmãos de sangue), com produção assinada por John Woo (de "Missão Impossível 2"), foi escolhido para fechar o Festival. O filme, narra o enfraquecimento da amizade entre três jovens quando eles se mudam para a Xangai dos anos 30, é dirigido por Alexi Tan, "protegido" de Woo. Aliás, o juri que só conta com diretores como a a francesa Catherine Breillat, a neozelandesa Jane Campion, o italiano Emanuele Crialese, o mexicano Alejandro González Iñárritu, o turco Ferzan Ozpetek e o holandês Paul Verhoeven, será presidido pelo chinês Zhang Yimou ("O Clã das Adagas Voadoras").

Francis Ford Coppola vai retornar ao país de origem de sua família para a estréia mundial de seu primeiro longa-metragem em dez anos. "Youth Without Youth" (juventude sem juventude), ambientado durante a 2a Guerra Mundial, será exibido no segundo RomaCinemaFest (que terá lugar entre 18 e 27 de outubro).

Tim Roth faz o papel de um professor na terceira idade cuja aparente imortalidade o converte em alvo dos nazistas. Coppola também escreveu o roteiro do filme, baseado num romance curto do escritor romeno Mircea Eliade. "Este filme representa uma nova fase de minha carreira, na qual pretende fazer apenas filmes pessoais", disse Coppola. "Estou ansioso por mostrar o filme neste novo festival na Itália, país cujos grandes mestres Rossellini, Fellini, Visconti, Pasolini e Antonioni inspiraram o início de minha carreira."

Primeiro filme de Coppola desde "O Homem Que Fazia Chover", de 1997, "Youth" também tem em seu elenco Alexandra Maria Lara, Bruno Ganz, Alexandra Pirici, Marcel Iures e Andre Hennicke. A Sony Pictures Classics fará sua distribuição na América do Norte.

Nem Veneza, nem Roma divulgaram a sua seleção oficial, mas a imprensa italiana chegou a usar o termo “guerra fria” para definir o clima de competição que se instaurou entre as duas cidades, principalmente porque entre um festival e o outro se passa apenas um mês...

O que se sabe de Toronto 2007: "No Country for Old Men", dos irmãos Coen; "Michael Clayton", de Tony Gilroy (com George Clooney no papel de um advogado em crise de consciência); "The Golden Age", de Shekar Kapur; "Honeydripper", de John Sayles; e "Diary of the Dead", De George Romero estão confirmados com apresentações especiais.

Não confirmado, mas dado como certo, é "I’m Not There", a alucinante cinebio de Bob Dylan por Todd Haynes – aquele que tem Cate Blanchett, Christian Bale, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger e Ben Whishaw revezando-se no papel principal.

E em São Paulo, Leon Cakoff já deu algumas pistas da seleção:

De CANNES:

1. LE SCAPHANDRE ET LE PAPILLON, de Julian SCHNABEL (EUA/FRANÇA)

2. PERSEPOLIS, de Marjane SATRAPI & Vincent PARONNAUD (IRÃ/FRANÇA)
3. NO COUNTRY FOR OLD MEN, de Joel COEN & Ethan COEN (EUA)
4. THE EDGE OF HEAVEN, de Fatih AKIN (ALEMANHA)
5. ALEXANDRA, de Alexander SOKUROV (RÚSSIA)
6. 4 MONTHS, 3 WEEKS AND 2 DAYS, de Cristian MUNGIU (ROMENIA)
7. TEHILIM, de Raphaël NADJARI (FRANÇA)
8. UNE VIEILLE MAÎTRESSE, de Catherine BREILLAT (FRANÇA)
9. PROMISE ME THIS, de Emir KUSTURICA (SÉRVIA)
10. SILENT LIGHT, de Carlos REYGADAS (MÉXICO)
11. IMPORT EXPORT, de Ulrich SEIDL (AUSTRIA)
12. BREATH, de KIM Ki-duk (CÓREIA DO SUL)
13. POST MORTEM, de Andrzej Wajda (POLÔNIA)
14. THE TERROR’S ADVOCATE, de Barbet SCHROEDER
15. LA QUESTION HUMAINE, de Nicolas Klotz (FRANÇA)
16. SICKO, de Michael Moore (EUA)
17. CALIFORNIA DREAMING, de Cristian Nemescu (ROMENIA)
18. PARANOID PARK, de Gus Van Sant (EUA)
19. SECRET SUNSHINE, de Lee Chang-dong (COREIA)
20. THE MAN FROM LONDON, de Béla Tarr (HUNGRIA)
20. YOU, THE LIVING, de Roy Andersson (ROMÊNIA)

De BERLIM

1. LA VIE EM ROSE, de Olivier DAHAN (FRANÇA)

2. ANGEL, de François OZON (FRANÇA/BELGICA/INGLATERRA)
3. DON´T TOUCH THE AXE, de Jacques RIVETTE, (FRANÇA/ITÁLIA)
4. I’M A CYBORG, BUT THAT’S OK, de Park CHAN-WOOK (CÓREIA)
5. YELLA, de Christian PETZOLD, (ALEMANHA)
6. A CASA DE ALICE, de Chico TEIXEIRA (BRASIL)
7. THE COUNTERFEITERS, de Stefan RUZOWITZKY (ALEMANHA)
8. MY FÜHRER – THE TRULY TRUEST TRUTH ABOUT ADOLF HITLER, de Dani LEVY (ALEMANHA)
9. THE LIVES OF OTHERS, de Ulrich MÜHE (ALEMANHA)
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