Mostrando postagens com marcador BRIAN DE PALMA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BRIAN DE PALMA. Mostrar todas as postagens

2.2.08

O desafio de saber contar a guerra

REDACTED, o mais recente filme de Brian de Palma, confundiu a maioria dos críticos americanos desde que estreou em Nova York em meados de novembro. Ele cria limites tão sutis entre o real e o fictício que os espectadores ficam desconcertados e se remexem incomodados nas poltronas.

O episódio central do filme é o estupro de uma garota de 14 anos, Abeer Qasim Hamza, em Samarra, um povoado a 125 quilômetros ao norte de Bagdá. Os culpados são cinco soldados americanos que vigiam um posto de fronteira. E eles não só a estupram, mas a matam junto com toda sua família.

O fato é verdadeiro, mas é contado com uma linguagem de ficção. E a ficção, por sua vez, emprega as ferramentas usadas no mundo real: um diário de guerra escrito com uma câmera de vídeo, fragmentos de noticiários em língua árabe, páginas de internet, entrevistas reais com iraquianos ultrajados pelo Exército invasor, um documentário francês sobre o tenso aborrecimento da vida no posto de fronteira.

Essa oscilação entre o imaginado e o verdadeiro deixa o público intranqüilo, inseguro sobre o terreno onde pisa. Ao sair do cinema, na escada para a rua, ouvem-se algumas discussões sobre REDACTED. Dois casais se perguntam se a descrição do mal ajuda a conjurar o mal ou se essa exposição é um simples ato de vaidade do cineasta. Como se De Palma tivesse dito: "Eu tenho coragem diante do horror. Não me detenho." Mas, ao afirmar isso, ele se esquece de que falar do horror, mesmo com a linguagem mais eloqüente, não se assemelha a estar dentro do horror, a ser uma de suas vítimas. O tema tem sido debatido há décadas sem que se encontre uma saída convincente.

Ele já foi explorado por Susan Sontag em "Diante da Dor dos Outros" (no Brasil, pela Companhia das Letras, 2003). Ali, ela adverte que a representação visual do atroz é também uma forma de corrupção: reflete o corrupto e pode corromper quem o reflete.

Essa última obra de Brian de Palma é uma reescritura de PECADOS DA GUERRA (1989) no qual o diretor contava o estupro de outra adolescente durante a guerra do Vietnã. A história em ambos é a mesma e muitos episódios se repetem como em um espelho. O fato de Brian de Palma insistir no tema, arriscando-se a um desolador fracasso comercial - como comprova o escasso público de REDACTED - indica que seus móveis vão além do estético, que está obedecendo a um impulso moral.

Nos dois filmes, os soldados envolvidos no estupro não sabem por que estão onde estão, perto das investidas do Vietcongue em um caso e ao norte de Bagdá no outro. A guerra, para eles, é apenas "um trabalho que deve ser feito", um caminho no qual avançam às cegas supondo-se donos absolutos dos territórios ocupados. Eles sentem-se no direito de dispor dos corpos que têm ao seu alcance: velhos, recém-nascidos, meninos, mulheres, até mortos. Tudo que foi derrotado ou submetido lhes deve submissão. Eles se acreditam todo-poderosos, se sabem impunes. Estão convencidos de que a guerra os situa além de todo erro e de toda consciência.

No final dos dois filmes, quando são julgados por tribunais militares por juízes do mesmo Exército que os impeliu a matar, eles supõem que se são sancionados também são atraiçoados. O fato de os castigarem equivale para eles a colocar-se do lado do inimigo.

"Estão fazendo o jogo do Vietcongue", dizem em um caso, E, no outro, como num eco: "Estão colaborando com os insurgentes iraquianos." Em PECADOS DA GUERRA, os estupradores eram quatro: um deles se convertia em cúmplice por covardia. O quinto se recusava e denunciava os demais. Em REDACTED são dois os que estupram e três os que se recusam: um, porque permanece na barraca, outro porque quer documentar o que acontece; o último porque decide contar o que aconteceu.

Os personagens são mais complexos que no filme de 1989. O que não sai do refúgio é um leitor infatigável dos romances de John O'Hara. O outro, um hispânico que filma em vídeo tudo que vê, tem a esperança de que esse diário visual lhe abra as portas de uma escola de cinema documentário, talvez de Hollywood. O quinto procura explicar inutilmente que o que eles tramam é desalmado, bestial. Os dois restantes se atiram, cegos, no centro da tragédia.

Em seu posto de vigilância eles observam e registram todos os dias a garota de 14 anos que se dirige à escola levando pela mão a irmã menor. Eles não suportam que ela vá e venha. As mulheres são seus objetos de caça. Elas lhes pertencem, devem aceitar a brutalidade de seus desejos.

Eles não concebem os demais como seres humanos porque tampouco se pensam como pessoas. Elegem um alvo e a ele se atiram. Eles tratam apenas de aniquilar, saciar-se, seguros de que ninguém vai puni-los por seus instintos. Na guerra, tudo se degrada, tudo se despedaça, tudo deixa de ter sentido. Entra-se na guerra com um fim, um objetivo. E geralmente se sai com as mãos vazias, convertido em alguém que já não será o que foi.

A violência impiedosa das guerras cria a atração hipnótica que se vislumbra às vezes nas fotos e nos filmes. Quando é real, quando golpeia na vida, essa violência é tão atroz que não consegue ser narrada. Narra-se apenas a sua fealdade, como em Redacted. Mas, o que os espectadores querem ver é a impossível beleza da violência, a degradação, a enfermidade da qual se crêem a salvo.

REDACTED foi exibido nos Festivais de Veneza, Toronto e São Paulo. Leia a crítica do filme no Spoiler Movies

Por Tomás Eloy Martínez

4.9.07

Brian vai à guerra

VENEZA: Em setembro do ano passado, quando estava no Festival de Toronto para apresentar DÁLIA NEGRA, Brian De Palma foi procurado por um representante da produtora HDNet Films com uma proposta: desenvolver um filme de US$ 5 milhões (cerca de R$ 9,8 milhões), sobre qualquer tema, desde que realizado em vídeo digital de alta definição.

De Palma respondeu que concordaria, se encontrasse um assunto adequado ao formato. Pouco depois, tomou conhecimento de um incidente da Guerra do Iraque em que soldados americanos de um posto de controle estupraram uma garota de 14 anos, massacraram sua família, atiraram no rosto dela e incendiaram seu corpo. "Como esses garotos podem ter chegado a esse ponto?

Procurando respostas, li blogs de soldados, vi seus vídeos amadores, surfei por seus websites e pelo material postado no YouTube. Estava tudo lá, e tudo em vídeo", disse o diretor.

O resultado desse trabalho foi exibido pela primeira vez na sexta-feira passada, na competição do Festival de Veneza, provocando alto impacto. "Redacted", que também será exibido no Festival de Toronto e tem estréia garantida no Brasil, é a recriação ficcional desse episódio brutal, na forma de um documentário multiforme, reproduzindo os meios de captação e reprodução da imagem digital hoje: diários filmados, documentários amadores, câmeras de vigilância, testemunhos on-line.


De Palma fez um filme profundamente político, não só pelo seu conteúdo, mas também pela proposta de uma reflexão em torno da imagem hoje. REDACTED significa "editado", numa referência à forma como a informação sobre a guerra do Iraque vem sendo veiculada pelos grandes meios de comunicação -"na base da omissão, da mentira e da censura", nas palavras do diretor. Em entrevista, De Palma transbordou sua indignação com a guerra e criticou, ainda, a indústria do cinema americano.

Spoiler: Depois da primeira exibição de "Redacted", a platéia parecia atônita, sem saber como reagir ao filme. O que achou da reação?
Brian de Palma: Antes de Veneza, mostrei o filme para poucos amigos, produtores e distribuidores. Notei essa mesma reação, em todas as exibições que fiz. Não sei bem o porquê, talvez por ser algo novo as pessoas ainda não saibam exatamente como processar o que viram. Quando você faz algo inovador, é natural que perguntem o que é isso. Mas só estou apresentando um material na forma como eu o descobri. Procurei determinadas informações, e a forma do filme evoluiu naturalmente dessa pesquisa. Fiz "Redacted" do modo que me pareceu o mais correto para expor o tipo de material que encontrei.

Spoiler: Como foi o trabalho de pesquisa?
De Palma: Basicamente, usei as ferramentas de busca da internet. Juntei mais de cem páginas de material e descobri tudo o que você vê no filme, não inventei absolutamente nada. O que selecionei e o que ficou na versão final é baseado em material de plena confiança. Está tudo lá. Nem sempre pudemos identificar a origem de certos materiais, que, por isso, não foram usados.

Spoiler: Além da pesquisa virtual, você conversou com soldados?
De Palma: Sim, vários. A pesquisa não se limitou à internet. E o mais impressionante é que as histórias são as mesmas, exatamente as mesmas do Vietnã! Os veteranos se fazem as mesmas perguntas, dizem as mesmas coisas: o que fomos fazer lá? Todo mundo parece me odiar! Que diabos é isso? Meu amigo explodiu atrás de mim! É exatamente a mesma história que contei em "Pecados da Guerra" [filme de 1989].

Spoiler: Você encontrou muitas barreiras legais enquanto desenvolvia esse filme?
De Palma: Sim. Precisei consultar advogados para saber o que poderia ser usado o tempo todo. O material que cai na internet não é de domínio público se você for fazer um filme de ficção. E isso é uma loucura. Nunca entendi direito como funciona essa legislação. Em nosso país, se você faz uma obra de ficção baseada em algo que supostamente aconteceu de verdade, pode facilmente ser processado pelas pessoas que viveram a história -mesmo depois de essa história ter sido publicada, impressa e transmitida pela TV infinitas vezes. Tudo, no filme, é ficcionalizado, mas não menos verdadeiro.

Spoiler: Por que a maior parte dos americanos não chegou a esse material, se ele está disponível na web?
De Palma: Isso é curioso. Não sei porque, mas toda a forma como a informação circula mudou, e muita gente ainda não sabe como chegar até ela. Do Vietnã para cá, acho que o aspecto do mundo que sofreu a maior transformação foi a mídia, que hoje não informa, mas esconde a informação. É preciso fazer um filme sobre isso: o que aconteceu com a mídia? Que tipo de transformação se efetuou? A primeira Guerra do Golfo, por exemplo, foi impressionante. Parecia um show de fogos de artifício. Ninguém via onde as bombas caíam, eram apenas luzes no céu. Mas, Deus do céu, aquelas bombas estavam caindo sobre pessoas!

Spoiler: Ter feito esse filme em vídeo foi um ato político?
De Palma: Não, o vídeo não é político por ser vídeo, é apenas um meio que está aí, disponível. O fato é que surgiu toda uma nova indústria criativa a partir do vídeo e da tecnologia digital e nós não fazemos idéia de onde ela vai parar. Toda vez que me conecto na internet, descubro alguma coisa nova. Há correspondentes de TV em várias partes do mundo que transmitem programas ao vivo, de suas próprias casas. Hoje, cada um pode ter seu próprio programa de TV. Isso é uma revolução.

Spoiler: Como você espera que seu filme seja recebido nos EUA?
De Palma: Fiz esse filme o mais silenciosamente possível, não queria que a notícia vazasse e algo pudesse atrapalhar nosso processo de trabalho. Tenho certeza de que "Redacted" vai desagradar muita gente. Sua primeira exibição está sendo aqui no Festival de Veneza. Acredito que, nos EUA, a reação vai ser bastante polarizada. A direita vai chamá-lo de propaganda comunista. Será uma reação forte.

Spoiler: Qual será o desenvolvimento da guerra a partir de agora? Haverá uma retirada em um curto espaço de tempo?
De Palma: Não. Essa guerra ainda vai durar muito tempo. Provocamos um caos e agora fica difícil sair dele. Alguém acreditou, algum dia, que nossa presença no Iraque tornaria algo melhor? Obviamente não sabemos nada! O que estamos fazendo lá? Mas a consciência do desastre está cada vez maior. Talvez com o novo Congresso, as coisas comecem a mudar. O desenrolar dessa guerra foi tão ruim e há tanta mentira que não há como evitar que as coisas venham à tona.

Spoiler: É possível voltar à ficção depois de um filme como esse?
De Palma: Não sei... Quero ainda fazer muitos filmes, mas filmes que sejam do meu interesse, do coração. Estou cansado de lidar com todo o "mambo jambo" do cinema. Todos os executivos de Hollywood, hoje, vieram da televisão. Há muita coisa boa na TV, mas esses executivos simplesmente não entendem nada de cinema. Eles querem produzir coisas que passem no horário nobre.

Spoiler: Como vê as perspectivas de sua carreira, daqui para adiante?
De Palma: Qual é o objetivo de uma carreira cinematográfica hoje? Fazer um sucesso atrás do outro? Por quê? Depois que você juntou um certo dinheiro, qual o sentido em ganhar mais dinheiro? Essa é a questão. Quando fiz "Missão: Impossível", meu filme de maior sucesso, Tom Cruise veio me perguntar se queria fazer "MI:2". Mas por quê? O que pode haver de interessante criativamente aí? Vejam Sam Raimi, um diretor talentoso, o que ele tem feito? Vai passar o resto da vida fazendo "Homem-Aranha"! Vão fazer mais três filmes! Sinceramente, esse é um preço alto demais para se ganhar um bilhão de dólares. Na minha idade, vou aproveitar o que me resta.

Por Pedro Butcher - Folha de São Paulo
by TemplatesForYou
SoSuechtig,Burajiru