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11.11.07

A cinefilia está em crise!!! (Parte 1/3)

"Os piores filmes que pude ver, os que me mergulham num sono profundo, contêm sempre cinco minutos maravilhosos; ora, os melhores filmes, os mais cobertos de louvores, não contam com mais de cinco minutos válidos"
Cesare Zavattini

E eis a essência cinematográfica jorrando de maneira insólita de um filme anódino, de uma comédia-bufa ou de um dramalhão. Isso quer dizer que em todos os filmes, bons ou maus, além e apesar das intenções, a poesia cinematográfica luta para vir à tona.

A Rede SPOILER sempre acreditou nesse príncipio. Não há filmes bons. Não há filmes ruins. Há apenas filmes...Filmes que podem ou não nos surpreender. Filmes que podem ou não nos encantar. Afinal, enquanto cinema, os filmes são arte. E como arte, demandam impressões subjetivas inerentes a cada um.

O debate que segue é muito proveitoso. Será que a cinefilia está mesmo em crise? Qual o verdadeiro mote do distanciamento entre a crítica e o público? Afinal o que é cinema, enquanto arte?

Esse é o grande questionamento do "Projeto Mosaico"...Projeto que sempre marca as comemorações de aniversário do blog e culmina sempre no Prêmio Spoiler de Cinema e Blog. Esse ano, no auge de seu 4º aniversário, SPOILER convidou Godard, Almodovar, Lynch, Bertolucci, Cronemberg, Von Trier, Woo e Scorsese a explicarem seus trabalhos e apontarem as tendências da sétima arte e; afinal responderem: A cinefilia está em crise?

Aguardem...

A cinefilia está em crise!!! (Parte 2/3)

"A cinefilia está em crise. Nós, críticos, estamos perdendo a credibilidade. A crítica deveria construir, com o cinema, um pensamento humanitário e filosófico, e não apenas dizer se um filme é bom ou ruim. Sou crítico. Caiu a ficha. Estamos perdendo [a comunicação com] a platéia. Hoje, a cinefilia não é mais como no meu passado"
Leon Cakoff

Partamos do senso comum que supõe que existam dois públicos de cinema. De um lado, encontra-se o espectador que busca na sala escura um par de horas movidas a distração. De outro, membros de uma espécie muitas vezes olhada com estranheza e desconfiança, composta de cinéfilos e críticos, gente cuja paixão se explica pela razão de ver o cinema como uma continuidade da vida e do mundo, uma potência que os recarrega de novos, outros e múltiplos símbolos e significados.

Para aqueles que se contentam com a diversão, um livro como "A Rampa" (Cosac Naify, 248 págs., R$ 65) assim como parte da crítica publicada em jornais, revistas e sites de internet não trazem nenhum interesse. Já para o segundo público, cuja invisibilidade não é motivo para suspeitar de seu tamanho, a primeira edição no Brasil de escritos do crítico francês Serge Daney (1944-1992) é motivo de sobra para muita festa.

Pois, ao contrário do que se alardeia (ver declaração acima), não existe nem "crise da cinefilia" muito menos "perda da credibilidade da crítica". Só no Brasil, basta abrir as páginas de revistas como "Paisà" e "Teorema" e sites como "Contracampo", "Cinética" e "Cinequanon" para descobrir uma produção inquieta e estimulante de idéias, abastecida por uma geração de jovens cinéfilos e críticos que vêm, em anos recentes, restaurando o vigor de análise e o prazer de decifrar como participante a galáxia audiovisual em que estamos imersos.

"A Rampa" reúne uma seleção, feita pelo próprio Daney, de textos publicados nos "Cahiers du Cinema" entre 1970 e 1982. Ao longo dessa fase não é apenas o cinema que passa por incessantes mutações. Também a revista francesa, espécie de bíblia dos cinéfilos, teve de enfrentar sucessivas rupturas (teóricas, financeiras, gráficas) para preservar o poder de influência que conquistara desde sua fundação, nos anos 1950.

Em primeira instância, os escritos de "A Rampa" são testemunhos dessas duas histórias. Na subdivisão interna da obra, "Plano Geral" e "Pontos de Vista 1 e 2" resgatam do limbo uma produção que ficou condenada em conseqüência dos engajamentos políticos e teóricos da redação dos "Cahiers" nos anos pós-68.

Sua presença na edição, contudo, em vez de prova de anacronismo, ajuda a abastecer de respostas (e mais polêmicas) a questão-dilema que acompanha a reflexão sobre o cinema desde que ela surgiu: para que serve a crítica?

Outras tantas respostas o leitor encontrará nos capítulos seguintes de "A Rampa", ironicamente intitulados "Perdas de Vista 1 e 2". Neles, que reúnem textos de Daney a partir de 1975, observa-se um reenfoque, uma espécie de retorno à matéria que constitui o cinema: os próprios filmes.

Ao mesmo tempo, ganha amplitude (e clareza) o arriscado jogo textual que Daney perseguia como particularidade e assinatura desde a primeira fase.
O arcabouço teórico de predominância estruturalista (com Barthes e Lacan como estandartes) perde aos poucos a pretensão de pureza e se contamina da visão e, sobretudo, da experiência provocada pelos filmes. Desse modo, opera-se um curto-circuito intelectual, na medida em que a teoria cessa de conformar a interpretação do cinema, e este passa a informar a teoria, dando-lhe novo alcance.

Essa gradação se dá com tal intensidade que permite a Daney escapar dos limites da mera análise, produzindo um corpo teórico que se expande muito além dela, como no caso de suas vigorosas observações sobre a voz no cinema partindo de um comentário de O DIABO PROVAVELMENTE, de Bresson.

Muito mais que na primeira fase, assumidamente ideológica, é nesta segunda que Daney empreende uma releitura produtiva da "Política dos Autores", promovida pelo grupo de Truffaut, Godard, Rohmer, Chabrol, Rivette e companhia, primeira geração de críticos da revista.

Em sua lucidez, Daney condena de cara os artifícios do que ele chama de "retrô". Na medida em que o "autor" substituiu a "estrela" como objeto de culto, ele escreve, "não é mais o que se passa na tela que realmente conta, mas o que podemos aproveitar do querer-dizer do Autor".

Em vez de reproduzir o institucionalizado, Daney desloca o foco para o primeiro termo da fórmula, afirmando sistematicamente a "política" tanto no sentido dos não-ditos e das escolhas éticas e estéticas do artista quanto nas recargas de significados que o público tem a liberdade de conferir às obras.

Daí provêm, por exemplo, as geniais desmontagens de TUBARÃO, de Spielberg, e de HITLER, de Syberberg. São textos a anos-luz da concepção de crítica como guia de consumo e que comprovam a tese deleuziana de que o cinema, mais que dar temas para pensar, é, ele mesmo, um pensamento.

Por Cássio Starling Carlos (Folha)

A cinefilia está em crise!!! (Parte 3/3)

"Não cabe à crítica querer educar o cinema"
Leon Cakoff

As evidências são flagrantes. Há menos espectadores seguindo críticos, e há menos críticos empenhados na formação de platéias. Críticos e cinéfilos precisam reaprender que filmes e seus autores podem existir independentemente de suas opiniões. Críticos e cinéfilos precisam parar de querer educar os cineastas com suas opiniões ou desconsiderações excludentes.

Vamos promover uma discussão sadia e necessária. Afinal, sem os críticos não haveria história do cinema. O cinema escrito e pensado é também base de nossa formação e muitas vezes ajuda a traduzir o que não vemos.

Críticos devem conduzir filmes e seus pensamentos com as fragilidades requeridas. Não devem entregar produtos aos consumidores finais já destruídos na embalagem. Devem deixar a própria vida sedimentar os fragmentos de filmes que dão base a nossos conceitos e sabedorias. Os filmes devem voltar a ser vistos como materiais de construção.

Não é por acaso essa discussão sobre a crise da crítica e da cinefilia. A 31ª Mostra Internacional de Cinema lança (em parceria com a editora Cosac Naify) "A Rampa", com textos exemplares do crítico Serge Daney (1944-1992), escritos entre 1970 e 1982 para os "Cahiers du Cinéma".

Para embasar essa discussão, conseguimos reunir os dois elos do movimento que significou o resgate da credibilidade da mítica revista francesa com os seus leitores-cinéfilos. Os prefácios de "A Rampa" são assinados por Serge Toubiana, contemporâneo de Redação de Daney, hoje presidente da Cinemateca e do Museu de Cinema de Paris, e por Jean-Michel Frodon, atual redator-chefe dos "Cahiers".
Toubiana vê em Daney o seu ponto forte pela "capacidade de inventar e unir, a partir da visão de um filme, um corpo-linguagem que permita dialogar com o autor, transcender a visão subjetiva do filme e conduzi-la a um nível de inteligência superior".

O que Serge Daney fez é exemplar. Ele limpou os templos do cinema de seus profanadores, dos afetados ideológicos que nem sequer permitiam a divulgação de fotos como os talebans de hoje. Daney resgatou a vocação dos "Cahiers" com textos apaixonados por cinema ao reagir contra uma Redação afetada pelas infantilices ideológicas, precisamente do nefasto maoísmo e sua raivosa revolução cultural excludente.

Graças à coragem de Daney, Frodon herdou uma revista mais livre de preconceitos. Ainda experimental, mas aberta a todos os segmentos do cinema.
E é dele a observação no livro de que o "canteiro de obras teórico" de Daney recompôs a rampa que separava o palco/tela das platéias.

Mas a discussão não se encerra com os bons exemplos do passado e suas heranças. Vamos ver o que acontece dentro da própria seleção da 31ª Mostra, onde temos um novo filme de Manoel de Oliveira e um novo de Claude Lelouch.

Ambos fazem quase que um filme por ano, só que Oliveira não faz o sucesso que merece, e Lelouch faz (o sucesso que merece). Ambos são vítimas de uma boa parcela da crítica, inconformada com as suas existências. Só que o insucesso de Oliveira se consegue justificar, e o sucesso de Lelouch, não.

É óbvio que Manoel de Oliveira não faz um filme primoroso do ponto de vista dos que têm o cinema como referência de ação. Mas ele é um pensador que se vale do cinema como instrumento de reflexão. Há críticos que fazem chacota de Oliveira e de seus defensores, como se fôssemos sustentáculos de uma mentira indefensável. Num outro segmento há críticos inconformados com sucessos que fogem de seu controle.

E é obvio que Claude Lelouch, embora faça um cinema primoroso, apegado a emoções, desagrade a uma categoria de críticos inconformados pela traição das platéias à sua cartilha de verdades dogmáticas. Pode haver absurdo maior do que críticos ignorarem um autor como Claude Lelouch por ele fazer sucesso de público, contrariando todas as suas vontades? A própria Folha se recusou a pautar uma entrevista com Lelouch nesta sua passagem pela Mostra.

Não existe nem "crise de cinefilia", muito menos "perda da credibilidade da crítica", contesta-me o crítico da Folha Cássio Starling Carlos no caderno Mais! de 14/10. Como prova, cita revistas e sítios na internet "com uma produção inquieta e estimulante de idéias". Sugiro que, na sua próxima resenha de um filme de Lelouch, ele dê um link a esses endereços que ousaram ouvir o que Lelouch tem a dizer sobre afeição pelo cinema.

Por Leon Cakoff
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