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4.12.07

Retrato da batalha no Rio de Janeiro

Gisela reconhece perfeitamente a sensação que está causando em boa parte dos brasileiros o filme TROPA DE ELITE, um sucesso cinematográfico que está batendo recordes de bilheteria e causando um debate nacional. "Meu filho, quando você vê chegar os blindados da tropa de elite, treme dos pés à cabeça", diz essa motorista de táxi, que, junto com seu marido e três filhos, vive em uma das favelas mais violentas do Rio de Janeiro.

TROPA DE ELITE, dirigido por José Padilha, retrata com crueza a violência das favelas, tanto a exercida pelos narcotraficantes como pela polícia. Transformou-se em um fenômeno social que desencadeou uma forte polêmica pública. As filas para ver o filme são quilométricas diante dos cinemas. Vinte milhões de pessoas dizem tê-lo visto ou que o verão, e outros 12 milhões o piratearam. A popular revista "Veja", que lhe dedicou uma reportagem de 17 páginas, diz que se trata "de uma obra de ficção que explica com uma fidelidade nunca vista como a criminalidade degradou o Brasil".

O que TROPA DE ELITE mostra é como funciona o corpo especial da polícia brasileira de combate ao narcotráfico, o Batalhão de Operações Policiais Especiais, conhecido como Bope. Recria a história verdadeira da Operação Santidade, realizada por esse corpo em uma favela próxima ao arcebispado do Rio nos dias anteriores à visita do papa João Paulo 2º em 1997. Na operação de quatro meses morreram mais de 30 pessoas e várias dezenas foram detidas.

O livro escrito por um ex-agente do Bope que participou dessa operação, Rodrigo Pimentel, foi o que inspirou o filme. O Bope, que nasceu como um corpo incorruptível de 160 policiais, hoje tem mais de 400 efetivos e sua integridade é mais que questionada. A única coisa sobre a qual muitos brasileiros concordam é a brutalidade do órgão.

O longa-metragem não deixa ninguém indiferente. Há os que o aplaudem de pé e os que se revoltam com as cruas cenas de tortura, mas ninguém fica impassível. Além disso, representa uma bofetada contra a classe média que consome drogas: vem dizer sem meias palavras que cada cigarro de maconha ou cada grama de cocaína que se compra contribui para que surjam mais traficantes, mais violência e mais morte.

A polícia aparece como é, corrupta, às vezes mancomunada com os traficantes, aos quais vende até suas armas; mas também imprescindível para combater o tráfico. Os traficantes aparecem sem romantismos, terrivelmente violentos e dispostos a semear o terror e a morte para manter o controle do mercado. Na pesquisa feita pela "Veja", 79% da população consideram que o filme retrata a polícia como ela é, e 72% pensam que os traficantes são tratados no filme com a crueldade que merecem.

Por Juan Arias - El País

Uma unidade policial violenta, no cinema e nas ruas do Rio

Para Antônia Dalva de Souza, um novo filme retratando a violenta guerra entre os traficantes do Rio e um esquadrão de elite da polícia militar é próximo demais da sua realidade.

Sua casa no morro, com suas frágeis paredes de tijolo vazado, foi crivada de balas da polícia neste ano. Uma cicatriz redonda no braço foi causada por uma bala disparada em um recente cerco da polícia. Outra bala perdida matou sua filha de 5 anos, Joyce, em 1995, enquanto estava deitada ao lado dela na cama. Ela suspeita que a polícia tenha feito o disparo.

"Eles chegam atirando", disse Antônia, 32 anos. "Meus filhos se escondem debaixo da cama quando o tiroteio começa."

Os moradores da favela da Vila Cruzeiro, uma das mais violentas do Rio,
disseram que ficaram sitiados no último mês pelos soldados vestidos de preto e usando boinas do Batalhão de Operações Policiais Especiais estadual, mais conhecido como Bope pelos brasileiros. Seus membros circulam em veículos blindados pesados com o símbolo do batalhão, um crânio e pistolas cruzadas, ou a pé, se movimentando com eficiência e velocidade felina, assustadora.

Como quase todo morador do Rio, Antônia assistiu TROPA DE ELITE, um novo drama brasileiro baseado na vida dentro do Bope, cuja missão é combater os traficantes de drogas da cidade.

O filme, que estreou nacionalmente no mês passado no
Rio e em São Paulo, oferece uma rara visão de dentro do batalhão, que é
descrito como homicida e torturador. Ele está fazendo muitos brasileiros
refletirem até que ponto a violência da polícia é aceitável, especialmente no Rio, uma cidade com um índice de homicídios mais de seis vezes maior do que o de Nova York.

Em particular, a tortura é apresentada no filme como um aspecto quase
constante da violência urbana no Brasil, com policiais e traficantes
competindo para superarem uns aos outros na escala da brutalidade.

Mesmo antes de chegar aos cinemas, TROPA DE ELITE já estava a caminho de se tornar um dos maiores sucessos do Brasil. Uma versão pirata em DVD foi vista por quase 11,5 milhões de pessoas, segundo o instituto de pesquisa Ibope.

Os esforços da polícia do Rio para manter o filme longe dos cinemas fracassaram. E na quinta-feira, um coronel da polícia da corregedoria exigiu que José Padilha, o diretor, comparecesse para depor na segunda-feira.

Padilha disse na sexta-feira que isto fazia parte do esforço da polícia para afastar os oficiais que o ajudaram a fazer TROPA DE ELITE. O governador do Rio, Sérgio Cabral, o aconselhou a ignorar o pedido. "A polícia está tentando perseguir todos aqueles que trabalharam neste filme", disse Padilha.

Nenhum filme causou tanto alvoroço desde CIDADE DE DEUS, uma aclamada visão de 2002 das favelas do Rio, do ponto de vista dos traficantes.

TROPA DE ELITE fez quase todos que o assistiram se contorcerem, provocando, por exemplo, um debate sobre se o uso hedonista das drogas pelas classes rica e média do Rio é responsável pela guerra na cidade.

O filme traça a história de uma operação do Bope em 1997 para erradicar o tráfico de drogas em uma favela próxima da casa do arcebispo do Rio. O Bope foi encarregado de tornar a área segura para uma breve visita do papa João Paulo 2º.

Durante a operação de quatro meses, o Bope matou cerca de 30 pessoas e prendeu 30, incluindo dois chefões do tráfico, disse Rodrigo Pimentel, um ex-oficial do batalhão que liderou a operação e co-escreveu o livro que inspirou o filme. Pelo menos dois circunstantes estavam entre os mortos.

Naquela época, o Bope tinha cerca de 120 membros e era considerado um
refúgio para os oficiais honestos no Rio. A força cresceu para mais de 400 atualmente e sua reputação de incorruptível está desaparecendo.

Mas sua reputação de brutalidade é quase incontestável. Em uma cidade
saturada com crimes violentos, o protagonista fictício do filme, o capitão Roberto Nascimento, foi celebrado por muitos aqui por seu estilo mortal, impiedoso, de tratar os criminosos.

Não é diferente da forma como os americanos passaram a admirar o fictício agente Jack Bauer da série de televisão "24 Horas", cujo estilo sem limites provoca resposta em uma sociedade no limite diante das ameaças terroristas.

Ambos os personagens são profundamente problemáticos. Nascimento,
interpretado pelo ator Wagner Moura, sofre de ataques de pânico e luta para separar seu mundo noturno violento de sua vida familiar.

O capitão e seus homens agridem incessantemente suspeitos e cobrem suas cabeças com sacos plásticos até cuspirem sangue. "Põe na conta do papa", diz o capitão quando outro membro do esquadrão pergunta se deve matar a vítima de tortura. Era algo que os membros do Bope costumavam dizer durante a operação real, disse Pimentel.

As reações ao personagem do capitão Nascimento parecem se dividir segundo as divisões de classe. "Ele traz segurança para nós, pessoas de classe rica e média", disse Aletea de Souza, uma professora de educação física, após uma sessão no domingo no Leblon, um dos bairros mais ricos do Rio. "Eu não diria que ele é um herói, mas ele é uma barreira entre os bons e os maus."

Na Vila Cruzeiro, tal atitude está provocando temor de que o filme esteja
glorificando o Bope. "Este é um filme perigoso", disse Nanko G. van Buuren, que dirige o Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde Social, uma organização não-governamental na favela. "O Bope é torturador, é homicida, e isto não é certo." As crianças na favela se vestem de preto e brincam de sessões de tortura, colocando sacos de plástico na cabeça de amigos, ele disse.

Padilha disse que a reação olho-por-olho de muitos brasileiros o surpreendeu. Ele disse que fez o filme como uma denúncia da violência e tortura. Wagner Moura, o ator, disse achar "impossível que pessoas na Finlândia ou na Suécia vejam estes policiais como heróis, policiais que torturam e matam", apesar de muitos brasileiros claramente respeitarem o capitão Nascimento.

Pimentel, que deixou o Bope em 1998 após seis anos, disse que o filme está chegando em um momento de ultraje entre os moradores com a violência no Rio.

Um caso particularmente chocante foi a morte em fevereiro de João Hélio Fernandes, de 6 anos, que foi arrastado por mais de sete quilômetros, preso a um cinto de segurança, depois que dois adolescentes roubaram o carro de sua família apontando armas.

O ex-policial disse que ficou desiludido com o batalhão depois da operação do papa. "A polícia esqueceu sua missão principal", ele disse. "Nós não estávamos lá para servir e proteger. Nós estávamos lá travando uma guerra privada contra os traficantes de drogas."

Por Alexei Barrionuevo, Mery Galanternick e Joshua Schneyer - The New York Times

José Padilha: um cineasta e um desafiador da consciência do Brasil

José Padilha brinca dizendo que o seu próximo filme incluirá uma bibliografia no final, para remeter a platéia à vasta pesquisa que ele faz à cada projeto. "Nós fazemos filmes que geram muitas perguntas que não podem ser respondidas", diz ele. "Como é que se resolve a violência urbana no Rio? Eu não tenho todas as respostas".

Em uma carreira relativamente curta, Padilha, 40, fez filmes que provocaram ecos profundos na consciência social do país. O seu último trabalho, TROPA DE ELITE, uma visão violenta das guerras em torno das drogas no Rio de Janeiro sob a perspectiva de uma tropa policial de elite, colocou-o no centro de um furioso debate a respeito da violência policial e do uso de drogas pela classe média, e tornou-se o filme mais comentado no Brasil desde CIDADE DE DEUS, em 2002.

Os críticos aplicaram todos os rótulos a Padilha, desde extremista de esquerda a direitista-fascista.

Baseado nas experiências da vida real de policiais do Rio de Janeiro, TROPA DE ELITE foi o primeiro filme de ficção de Padilha, seguindo-se a alguns documentários de sucesso. Mas o retrato áspero do sistema policial fez dele o alvo da polícia militar do Rio, que exigiu saber que policiais revelaram ao diretor os métodos de tortura utilizados pela instituição. Enquanto isso, grupos de direitos humanos, acusaram-no de glorificar o principal personagem do filme, o problemático capitão Roberto Nascimento, que à noite tortura e mata narcotraficantes, e de dia tenta inutilmente lidar com a sua vida violenta.

"Algo de realmente incrível aconteceu", disse Padilha, recentemente, da sua casa no Rio, na qual ele e o seu parceiro comercial, Marcos Prado, administram a Zazen Produções, uma companhia cinematográfica composta por seis pessoas. "Este pequena companhia que fez o filme provocou uma febre. Eu não sei o que isso significa, mas nunca esperei criar este grande fenômeno social".

Mesmo assim, Padilha afirma que o seu filme foi grosseiramente mal-entendido por alguns, especialmente no Brasil. Aqueles que o acusaram de apresentar a abordagem da tortura policial como excessiva, mas necessária, não captaram a mensagem do filme, diz ele. Segundo o cineasta, a idéia era denunciar a polícia como injustificadamente brutal e corrupta. Ele diz que, na sua opinião, o personagem Nascimento termina como um "completo anti-herói".

Mas nada disso impediu que bancas de jornais em todo o Rio exibissem o personagem Nascimento, representado pelo ator Wagner Moura, com uma boina preta, nas capas de revista, proclamando-o "o novo herói brasileiro".

Para Padilha, que cresceu em uma família privilegiada que conta com cientistas e artistas, o cinema não era uma trilha óbvia. O seu pai foi um cientista com pós-graduação em engenharia química pela Universidade de Houston. Padilha alimentou por um tempo a idéia de tornar-se jogador profissional de tênis. Ele formou-se em física e trabalhou por um breve período para uma corretora de investimentos.

Mas o mundo dos negócios o entediava, e não demorou muito para que ele se aliasse a Prado, um amigo e famoso fotógrafo brasileiro, para fazer um documentário.

Em 1998, Padilha e Prado viajaram a Nova York e procuraram Nigel Noble, um diretor de documentários e ganhador do Oscar, na Escola de Artes Tisch da Universidade de Nova York. Eles o persuadiram a vir ao Brasil e dirigir um documentário com eles sobre trabalhadores que cortam árvores na Floresta Amazônica para produzir carvão para a indústria brasileira de aço.

O filme resultante, OS CARVOEIROS, foi selecionado para exibição no Festival de Cinema Sundance, um golpe de sorte que colocou os dois companheiros cineastas na rota do sucesso.

A fim de conseguir verbas, Padilha e Prado filmaram alguns documentários para a televisão antes de passarem a produzir documentários independentes. Até TROPA DE ELITE, a obra mais notável de Padilha era a história do seqüestro de um ônibus municipal no Rio de Janeiro, uma notícia que foi transmitida ao vivo e ininterruptamente na televisão. O seu documentário sobre o episódio, chamado ÔNIBUS 174, ganhou um Emmy nos Estados Unidos na categoria Noticiário e Documentários.

Esse sucesso mudou a vida do diretor. Ele foi indicado para a Directors Guild e ganhou um prêmio Peabody, e ele e Prado contrataram um advogado para representá-los nos Estados Unidos, e um agente em Los Angeles.

E, o mais importante, o sucesso de ÔNIBUS 174 possibilitou a Padilha financiar TROPA DE ELITE. Ele juntou-se a Rodrigo Pimentel, um ex-capitão da tropa de elite policial - uma espécie de Swat brasileira - do Rio de Janeiro, chamada de Bope no Brasil, para escrever um roteiro que contaria a história da violência urbana segundo os olhos da polícia, um fato inédito no Brasil.

Pimentel, que saiu do Bope depois de desiludir-se com a sua missão de prender e matar traficantes de drogas, disse em uma entrevista que Padilha logo percebeu que a sua vida correria risco caso tentasse fazer um documentário sobre o tema.

Assim, eles decidiram fazer uma obra ficcional, mergulhando em pesquisas por quase três anos, conversando com cerca de 20 policiais e médicos que trabalharam com a polícia, e finalmente criando o capitão Nascimento.

O filme se passa durante a "Operação Papa", a operação realizada em 1997 pelo Bope para erradicar uma quadrilha de narcotraficantes em uma favela meses antes da visita de dois dias do papa João Paulo 2° à área, uma operação que Padilha classificou de "absurda".

"TROPA DE ELITE é uma espécie de vingança pelas vítimas da brutalidade e dos assassinatos policiais. De certa forma, ao ver o filme a platéia está se vingando da polícia. Sabe o que quero dizer? Especialmente nas favelas", diz Padilha.

Mas tal atitude gerou uma forte reação da polícia, que, depois que uma versão pirateada foi assistida por milhões de pessoas, tentou na Justiça impedir a exibição do filme. Depois os policiais procuraram Padilha, tentando persuadi-lo a revelar as identidades dos policiais que o ajudaram a realizar o trabalho. O governador do Rio apoiou o diretor, dizendo a ele que ignorasse tais solicitações feitas pela polícia. Padilha finalmente concordou em dar um pequeno depoimento no escritório do seu advogado, mas disse que se recusa a divulgar qualquer nome.

No início o financiamento foi difícil. A Globo, o conglomerado brasileiro de mídia, recusou-se a contribuir porque os diretores não garantiriam um final feliz, conta Padilha. "Você nunca irá chocar a platéia dessa forma", diz ele. "A nossa idéia é fazer filmes sem maquiagens".

No final, Padilha atraiu o interesse de Eduardo F. Constantini, filho do milionário argentino, que levou o projeto até a companhia de produção cinematográfica de Harvey Weinstein, em Nova York, que logo assinou um contrato para financiar o projeto.

Enquanto o roteiro passava pelas suas 12 fases, Pimentel uniu-se ao autor Luiz Eduardo Soares para produzir um livro, também intitulado "Tropa de Elite". O processo de emparelhar livros e filmes se encaixa na visão de Padilha, segundo a qual a ciência é mais bem explorada em livros, mas que os filmes são fundamentais para atrair atenção para os personagens.

"Todos os filmes que havíamos feito até então eram um punhado de peças científicas e inspiraram trabalhos nas universidades", diz ele. "Se você publica um trabalho acadêmico científico, é muito difícil dar início a um debate de âmbito nacional sobre qualquer coisa. Mas se você faz um filme, dá para desencadear tal debate. Gostamos de criar uma ponte entre esses dois mundos - cinema e ciência".

Atualmente Padilha está editando dois documentários, um sobre a fome, e um outro, filmado principalmente em inglês, sobre o debate entre antropólogos norte-americanos a respeito dos índios ianomami na Venezuela, que foram descritos no livro "Darkness in El Dorado" ("Trevas no Eldorado"), por Patrick Tierney.

"Não sei quantas páginas li sobre esse assunto", diz ele a respeito do seu projeto relativo à Venezuela. "Mas já é algo da ordem de milhares".

Por Alexei Barrionuevo - The New York Times

11.11.07

A cinefilia está em crise!!! (Parte 1/3)

"Os piores filmes que pude ver, os que me mergulham num sono profundo, contêm sempre cinco minutos maravilhosos; ora, os melhores filmes, os mais cobertos de louvores, não contam com mais de cinco minutos válidos"
Cesare Zavattini

E eis a essência cinematográfica jorrando de maneira insólita de um filme anódino, de uma comédia-bufa ou de um dramalhão. Isso quer dizer que em todos os filmes, bons ou maus, além e apesar das intenções, a poesia cinematográfica luta para vir à tona.

A Rede SPOILER sempre acreditou nesse príncipio. Não há filmes bons. Não há filmes ruins. Há apenas filmes...Filmes que podem ou não nos surpreender. Filmes que podem ou não nos encantar. Afinal, enquanto cinema, os filmes são arte. E como arte, demandam impressões subjetivas inerentes a cada um.

O debate que segue é muito proveitoso. Será que a cinefilia está mesmo em crise? Qual o verdadeiro mote do distanciamento entre a crítica e o público? Afinal o que é cinema, enquanto arte?

Esse é o grande questionamento do "Projeto Mosaico"...Projeto que sempre marca as comemorações de aniversário do blog e culmina sempre no Prêmio Spoiler de Cinema e Blog. Esse ano, no auge de seu 4º aniversário, SPOILER convidou Godard, Almodovar, Lynch, Bertolucci, Cronemberg, Von Trier, Woo e Scorsese a explicarem seus trabalhos e apontarem as tendências da sétima arte e; afinal responderem: A cinefilia está em crise?

Aguardem...

A cinefilia está em crise!!! (Parte 2/3)

"A cinefilia está em crise. Nós, críticos, estamos perdendo a credibilidade. A crítica deveria construir, com o cinema, um pensamento humanitário e filosófico, e não apenas dizer se um filme é bom ou ruim. Sou crítico. Caiu a ficha. Estamos perdendo [a comunicação com] a platéia. Hoje, a cinefilia não é mais como no meu passado"
Leon Cakoff

Partamos do senso comum que supõe que existam dois públicos de cinema. De um lado, encontra-se o espectador que busca na sala escura um par de horas movidas a distração. De outro, membros de uma espécie muitas vezes olhada com estranheza e desconfiança, composta de cinéfilos e críticos, gente cuja paixão se explica pela razão de ver o cinema como uma continuidade da vida e do mundo, uma potência que os recarrega de novos, outros e múltiplos símbolos e significados.

Para aqueles que se contentam com a diversão, um livro como "A Rampa" (Cosac Naify, 248 págs., R$ 65) assim como parte da crítica publicada em jornais, revistas e sites de internet não trazem nenhum interesse. Já para o segundo público, cuja invisibilidade não é motivo para suspeitar de seu tamanho, a primeira edição no Brasil de escritos do crítico francês Serge Daney (1944-1992) é motivo de sobra para muita festa.

Pois, ao contrário do que se alardeia (ver declaração acima), não existe nem "crise da cinefilia" muito menos "perda da credibilidade da crítica". Só no Brasil, basta abrir as páginas de revistas como "Paisà" e "Teorema" e sites como "Contracampo", "Cinética" e "Cinequanon" para descobrir uma produção inquieta e estimulante de idéias, abastecida por uma geração de jovens cinéfilos e críticos que vêm, em anos recentes, restaurando o vigor de análise e o prazer de decifrar como participante a galáxia audiovisual em que estamos imersos.

"A Rampa" reúne uma seleção, feita pelo próprio Daney, de textos publicados nos "Cahiers du Cinema" entre 1970 e 1982. Ao longo dessa fase não é apenas o cinema que passa por incessantes mutações. Também a revista francesa, espécie de bíblia dos cinéfilos, teve de enfrentar sucessivas rupturas (teóricas, financeiras, gráficas) para preservar o poder de influência que conquistara desde sua fundação, nos anos 1950.

Em primeira instância, os escritos de "A Rampa" são testemunhos dessas duas histórias. Na subdivisão interna da obra, "Plano Geral" e "Pontos de Vista 1 e 2" resgatam do limbo uma produção que ficou condenada em conseqüência dos engajamentos políticos e teóricos da redação dos "Cahiers" nos anos pós-68.

Sua presença na edição, contudo, em vez de prova de anacronismo, ajuda a abastecer de respostas (e mais polêmicas) a questão-dilema que acompanha a reflexão sobre o cinema desde que ela surgiu: para que serve a crítica?

Outras tantas respostas o leitor encontrará nos capítulos seguintes de "A Rampa", ironicamente intitulados "Perdas de Vista 1 e 2". Neles, que reúnem textos de Daney a partir de 1975, observa-se um reenfoque, uma espécie de retorno à matéria que constitui o cinema: os próprios filmes.

Ao mesmo tempo, ganha amplitude (e clareza) o arriscado jogo textual que Daney perseguia como particularidade e assinatura desde a primeira fase.
O arcabouço teórico de predominância estruturalista (com Barthes e Lacan como estandartes) perde aos poucos a pretensão de pureza e se contamina da visão e, sobretudo, da experiência provocada pelos filmes. Desse modo, opera-se um curto-circuito intelectual, na medida em que a teoria cessa de conformar a interpretação do cinema, e este passa a informar a teoria, dando-lhe novo alcance.

Essa gradação se dá com tal intensidade que permite a Daney escapar dos limites da mera análise, produzindo um corpo teórico que se expande muito além dela, como no caso de suas vigorosas observações sobre a voz no cinema partindo de um comentário de O DIABO PROVAVELMENTE, de Bresson.

Muito mais que na primeira fase, assumidamente ideológica, é nesta segunda que Daney empreende uma releitura produtiva da "Política dos Autores", promovida pelo grupo de Truffaut, Godard, Rohmer, Chabrol, Rivette e companhia, primeira geração de críticos da revista.

Em sua lucidez, Daney condena de cara os artifícios do que ele chama de "retrô". Na medida em que o "autor" substituiu a "estrela" como objeto de culto, ele escreve, "não é mais o que se passa na tela que realmente conta, mas o que podemos aproveitar do querer-dizer do Autor".

Em vez de reproduzir o institucionalizado, Daney desloca o foco para o primeiro termo da fórmula, afirmando sistematicamente a "política" tanto no sentido dos não-ditos e das escolhas éticas e estéticas do artista quanto nas recargas de significados que o público tem a liberdade de conferir às obras.

Daí provêm, por exemplo, as geniais desmontagens de TUBARÃO, de Spielberg, e de HITLER, de Syberberg. São textos a anos-luz da concepção de crítica como guia de consumo e que comprovam a tese deleuziana de que o cinema, mais que dar temas para pensar, é, ele mesmo, um pensamento.

Por Cássio Starling Carlos (Folha)

A cinefilia está em crise!!! (Parte 3/3)

"Não cabe à crítica querer educar o cinema"
Leon Cakoff

As evidências são flagrantes. Há menos espectadores seguindo críticos, e há menos críticos empenhados na formação de platéias. Críticos e cinéfilos precisam reaprender que filmes e seus autores podem existir independentemente de suas opiniões. Críticos e cinéfilos precisam parar de querer educar os cineastas com suas opiniões ou desconsiderações excludentes.

Vamos promover uma discussão sadia e necessária. Afinal, sem os críticos não haveria história do cinema. O cinema escrito e pensado é também base de nossa formação e muitas vezes ajuda a traduzir o que não vemos.

Críticos devem conduzir filmes e seus pensamentos com as fragilidades requeridas. Não devem entregar produtos aos consumidores finais já destruídos na embalagem. Devem deixar a própria vida sedimentar os fragmentos de filmes que dão base a nossos conceitos e sabedorias. Os filmes devem voltar a ser vistos como materiais de construção.

Não é por acaso essa discussão sobre a crise da crítica e da cinefilia. A 31ª Mostra Internacional de Cinema lança (em parceria com a editora Cosac Naify) "A Rampa", com textos exemplares do crítico Serge Daney (1944-1992), escritos entre 1970 e 1982 para os "Cahiers du Cinéma".

Para embasar essa discussão, conseguimos reunir os dois elos do movimento que significou o resgate da credibilidade da mítica revista francesa com os seus leitores-cinéfilos. Os prefácios de "A Rampa" são assinados por Serge Toubiana, contemporâneo de Redação de Daney, hoje presidente da Cinemateca e do Museu de Cinema de Paris, e por Jean-Michel Frodon, atual redator-chefe dos "Cahiers".
Toubiana vê em Daney o seu ponto forte pela "capacidade de inventar e unir, a partir da visão de um filme, um corpo-linguagem que permita dialogar com o autor, transcender a visão subjetiva do filme e conduzi-la a um nível de inteligência superior".

O que Serge Daney fez é exemplar. Ele limpou os templos do cinema de seus profanadores, dos afetados ideológicos que nem sequer permitiam a divulgação de fotos como os talebans de hoje. Daney resgatou a vocação dos "Cahiers" com textos apaixonados por cinema ao reagir contra uma Redação afetada pelas infantilices ideológicas, precisamente do nefasto maoísmo e sua raivosa revolução cultural excludente.

Graças à coragem de Daney, Frodon herdou uma revista mais livre de preconceitos. Ainda experimental, mas aberta a todos os segmentos do cinema.
E é dele a observação no livro de que o "canteiro de obras teórico" de Daney recompôs a rampa que separava o palco/tela das platéias.

Mas a discussão não se encerra com os bons exemplos do passado e suas heranças. Vamos ver o que acontece dentro da própria seleção da 31ª Mostra, onde temos um novo filme de Manoel de Oliveira e um novo de Claude Lelouch.

Ambos fazem quase que um filme por ano, só que Oliveira não faz o sucesso que merece, e Lelouch faz (o sucesso que merece). Ambos são vítimas de uma boa parcela da crítica, inconformada com as suas existências. Só que o insucesso de Oliveira se consegue justificar, e o sucesso de Lelouch, não.

É óbvio que Manoel de Oliveira não faz um filme primoroso do ponto de vista dos que têm o cinema como referência de ação. Mas ele é um pensador que se vale do cinema como instrumento de reflexão. Há críticos que fazem chacota de Oliveira e de seus defensores, como se fôssemos sustentáculos de uma mentira indefensável. Num outro segmento há críticos inconformados com sucessos que fogem de seu controle.

E é obvio que Claude Lelouch, embora faça um cinema primoroso, apegado a emoções, desagrade a uma categoria de críticos inconformados pela traição das platéias à sua cartilha de verdades dogmáticas. Pode haver absurdo maior do que críticos ignorarem um autor como Claude Lelouch por ele fazer sucesso de público, contrariando todas as suas vontades? A própria Folha se recusou a pautar uma entrevista com Lelouch nesta sua passagem pela Mostra.

Não existe nem "crise de cinefilia", muito menos "perda da credibilidade da crítica", contesta-me o crítico da Folha Cássio Starling Carlos no caderno Mais! de 14/10. Como prova, cita revistas e sítios na internet "com uma produção inquieta e estimulante de idéias". Sugiro que, na sua próxima resenha de um filme de Lelouch, ele dê um link a esses endereços que ousaram ouvir o que Lelouch tem a dizer sobre afeição pelo cinema.

Por Leon Cakoff
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